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Correio da Manhã

Opinião
20 de Fevereiro de 2003 às 00:00
Na mais recente crónica, referi-me a vítimas que acabam por estabelecer amizade com os criminosos.
Os casos são mais frequentes do que se possa pensar. O pior é que nem sempre é possível retirar a queixa.
Nas situações de furto simples, existe sempre essa possibilidade. Mas já é inviável desistir da queixa quando se trata de um roubo.

A diferença é a seguinte. Se houver violência, está-se perante um roubo. Se a violência tiver estado ausente, o que existiu foi um furto. Os roubos por esticão são considerados violentos e, como tal, nunca é possível extinguir o procedimento criminal. Tomei conhecimento de um caso curioso.

Um indivíduo encontrava-se no passeio e trazia debaixo do braço uma bolsa com a carteira, o telemóvel, os óculos e os documentos pessoais. Uma jovem abordou-o e perguntou-lhe as horas. Aproveitando um momento de distracção, a rapariga retirou--lhe a bolsa e desatou a correr.

O homem apresentou queixa na esquadra e os agentes policiais não tiveram dificuldade em identificar a criminosa, atendendo à descrição. Tratava-se de uma conhecida toxicodependente, que não hesitava em roubar quando sentia a falta da heroína.

Passados alguns dias, a vítima foi contactada pelo pai da rapariga. O progenitor prontificou-se a pagar todos os prejuízos e informou que a filha já se encontrava internada num centro de desintoxicação. Perante tal situação, o indivíduo escreveu uma carta dirigida ao tribunal, dizendo que se considerava ressarcido e que pretendia desistir da queixa.

A resposta não tardou: tratava-se de um roubo por esticão, logo violento. Era impossível arquivar o processo. O homem insistiu, dizendo que não houvera esticão nenhum. A bolsa apenas tinha escorregado para as mãos da ladra. Esta versão mais actualizada não vingou e o julgamento teve mesmo de se realizar.
Todavia, o juiz foi particularmente brando e aplicou uma leve pena suspensa.

Um dos casos mais conhecidos de amizade estabelecida entre vítima e criminosos foi o de Patrícia Hearst, filha de um multimilionário norte-americano. Em 1974, esta jovem, então com dezanove anos de idade, foi raptada junto à sua casa de São Francisco. Os raptores faziam parte de uma quadrilha intitulada Exército de Libertação, que se dedicava a assaltos a bancos.

Durante dois meses, Patrícia foi mantida fechada num roupeiro, com autorização para sair apenas para fazer uso da casa de banho. Foi violada e torturada inúmeras vezes.

Com o decorrer do tempo, os criminosos aperceberam-se de que o pai da raptada não iria pagar o pretendido resgate. Restava aniquilá-la. Um dos membros do bando lembrou-se, porém, de perguntar a Patrícia se ela não gostaria de aderir ao grupo. A resposta foi afirmativa.

Três meses depois do rapto, ela iniciou-se com um assalto ao Hibernia Bank, em São Francisco. Os ladrões levavam a cara coberta, à excepção de Patrícia. Obviamente, foi filmada e as imagens chocaram a América. A filha de William Hearst estava viva e convertera-se à marginalidade.

Durante ano e meio, sucederam-se os assaltos, até que Patrícia e os restantes membros da quadrilha foram capturados.

O juiz que ponderava aplicar à jovem uma pena de trinta e cinco anos de prisão veio a falecer de ataque cardíaco e foi substituído por um colega. Este, atendendo à coacção sofrida pela rapariga, condenou-a a sete anos de cadeia.
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