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Correio da Manhã

Opinião
3 de Setembro de 2003 às 00:00
Venho, pela presente, rogar a V.Exª se digne... Esta fórmula, que há meio século ou ainda menos era comum em qualquer pedido oficial, requerimento em papel selado ou simples correspondência comercial (que terminava sempre com as abreviaturas de um "atento, venerador e obrigado"), tornou-se obsoleta e a tal ponto antiquada que bem se pode considerar um arcaísmo dos tempos modernos. Na realidade, deixou de se rogar seja o que for. Deixou mesmo de se pedir qualquer coisa. Actualmente, exige-se. A exigência transformou-se numa das atitudes mais vulgarizadas do nosso quotidiano.
A revolução dos hábitos a este respeito é tal, que até a pedinchice mudou de estilo. Hoje não se implora "uma esmolinha por amor de Deus". Prefere-se usar formas mais incisivas, mais exigentes, como "dá-me um euro?", num tom de voz que sinto não poder reproduzir – quando há voz. Há poucos anos, numa das mais tradicionais cidades europeias, deparou-se-me uma pedinte, sentada no passeio sobre uma manta, que, muda e queda, se limitava a olhar os transeuntes. Tinha à sua frente um letreiro, com a frase "Aceita-se cartões de crédito", em duas ou três línguas.
Já não estranhamos que toda a actividade política e sindical se baseie na exigência. Nos debates parlamentares a Oposição faz exigências aos partidos do Governo. Nas manifestações da CGTP e da UGT os trabalhadores exigem, sejam melhores condições, melhores remunerações ou melhores aumentos. O patronato, por sua vez, exige maior produtividade e maior flexibilidade de horários. E os funcionários públicos exigem promoções automáticas e recuperação do poder de compra. Em certo programa televisivo foi-se longe de mais e chegou-se a exigir outra Justiça.
Compreende-se que as autoridades exijam o respeito pelo que a lei determina. Compreende-se que, de uma maneira geral, as pessoas comecem a obedecer a padrões de exigência mais elevados. Mas exigir-se, a torto e a direito, a propósito de tudo e de nada, é, convenhamos, um absurdo. Até porque muitos daqueles que exigem não estão, na prática, em condições de o fazer com êxito.
Uma das tiranias que mais facilmente se impõem é, de facto, a da palavra. Fá-lo de uma forma sub-reptícia, sorrateira, e quando damos por ela já está instalada de armas e bagagens. Foi o que sucedeu com o termo exigência e seus derivados. Entre pedir e exigir encontra-se um abismo, o que separa sensibilidade de autoritarismo, delicadeza de arrogância, moderação de exagero. Quem se julga no direito de tudo exigir está, consciente ou inconscientemente, a basear-se na presunção e na autoconfiança. Ao mostrar-se a tal ponto senhor de si, tão quero-posso-e-mando que assume a superioridade como um privilégio, está a lançar um desafio, quase um insulto.
A autoridade é, em numerosos casos, necessária, mesmo imprescindível. Mas nada a abala tanto quanto o seu abuso indiscriminado, a inútil rudeza no trato, a excessiva imposição, como se um dever fosse, de algo que não poucas vezes é dispensável ou facultativo.
Apresentar-se uma exigência pode, efectivamente, ser apenas ampliar a formulação de um pedido. Mas haverá também algumas excepções, casos em que pedir e exigir se confundem. Não resisto a dar um exemplo, que poderia ser meu e espero também do leitor. Peço ( e exijo) que as entidades envolvidas na gestão do Estado, do Governo, das autarquias, numa palavra, de tudo quanto é serviço público, incluindo o sector empresarial, sejam responsabilizadas por aquilo que estão a fazer ou que um dia fizeram. Sem que coisa alguma se esqueça, um só crime prescreva. Afinal, não sou eu nem o leitor, é a mais elementar justiça que o exige.
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