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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Abril de 2003 às 00:00
Na menos má das hipóteses, há uns "modernos" representados por discos antigos, "sobras" de outras lojas. E, no entanto, mercê da política cultural, de uma estratégia de divulgação que preza a produção nacional e não se deixa formatar pelo império anglo-americano, de uma avalanche de criatividade, a França fervilha de gente que dignifica a tradição e que só não alcança o destaque dos antepassados porque o país e a língua perderam muito terreno para os "adversários". Tanto que ainda são os Bécaud e os Aznavour, os Brassens e os Brel, as Greco, que nos vêm à memória. Merecem-no, sem dúvida. Mas têm herdeiros.
As propostas que aqui trago são, apesar de categóricas, apenas dois exemplos. Que, lamento insistir, só podem conseguir-se através de uma mão amiga ou do recurso à Internet. Os homens têm dez anos de diferença no B.I., os respectivos discos de estreia estão separados por oito. Thomas Fersen virou a barreira dos 40 em Janeiro último, mostrou ao que vinha com "Le Bal des Oiseaux" em 1993; Benjamin Biolay também cumpriu aniversário redondo em Janeiro, o trigésimo, e assinou "Rose Kennedy" em 2001. Aquele é parisiense, este vem da região de Lyon e, com os discos citados, ambos chegaram ao prémio revelação com essas "amostras" iniciais dos respectivos talentos. E nem vale a pena interromper aqui para perguntar quantos são os consumidores de discos que por cá os conhecem, pois não?
Abril, agora em desfecho, foi um mês grande, já que Fersen rompeu um silêncio de quatro anos (se descontarmos o triplo CD ao vivo intitulado… "Triplex", de 2001) para chegar ao sexto álbum: "Pièce Montée dês Grands Jours" (ed. Warner). Em simultâneo, Biolay também deu sinais de vida e sequência a "Rose Kennedy" e ao seu "Remix EP", com a edição de um manifesto chamado "Négatif" (ed. Virgin). Os dois registos chegam para que se faça – mesmo em círculo restrito… – uma verdadeira festa gaulesa, só por alcançar uma "dobradinha" de tanta classe.
Fersen mantém uma linha sonora mais forte, sem hesitar bater à porta do "rock", sem mostrar pruridos no recurso a instrumentações encorpadas, deixando escorrer de várias canções uma ironia assinalável. No limite, alguns cromossomas ter-lhe-ão sido passados por Brassens e Brel, com o parisiense a aplicar uma linguagem contemporânea que, mais uma vez, como já acontecia nos discos anteriores, abre mais pistas do que fecha. Biolay – que se revelou, antes de mais, como autor e compositor, garantindo belas canções a Henri Salvador e a Françoise Hardy – também parece ter "assumido" um padrinho: Serge Gainsbourg. Mais suave mas mais inquieto e angustiado que o seu parceiro de ocasião, assina uma segunda obra-prima de leveza, reforçada pela presença vocal várias vezes repetida da mulher, Chiara Mastroianni, que assim dá seguimento às incursões discográficas da mãe, Catherine Deneuve. Já se disse: o álbum é daqueles que cativa à primeira mas se vai descobrindo a cada audição.
Ambos são também discos de "palavras de honra". Daí o regresso ao início da "conversa": este boicote à nova música francesa só pode ser resultado de uma qualquer sanção. Mas, "au nom de Dieu", porque carga de água?
TOCA A TODOS
n Há casos em que a qualidade compensa: JACINTA e o seu "Tribute To Bessie Smith" (ed. EMI-VC) não só figuram no "top ten" português como ultrapassaram já a marca do Disco de Prata. Para alguém que vem de um quase completo anonimato e se move na complicada área do "jazz", os resultados são gratificantes. A margem de progressão é enorme. E, certamente, os "resistentes" da mesma "região demarcada", cantores e instrumentistas, não deixarão de partilhar o orgulho com a cantora. Haverá mais assim? n O DVD reflecte a simplicidade de processos que caracterizou um emblemático grupo da "new wave", os POLICE: "Every Breathe You Take" (ed. Universal) reúne os "clips" do trio, junta-lhes um par de canções ao vivo e mais um documentário – intervalado a canções – de 45 minutos que "retrata" a banda de Sting, Andy Summers e Stewart Copeland. Uma justa forma de assinalar os 25 anos de actividade de um grupo que fundiu rock, reggae e o mais que viesse, e que ajudou a mudar a música. Para melhor.
TOCA E FOGE
n Podia dar-se o caso de ela ter herdado o carisma do pai, a criatividade e o perfeccionismo do segundo marido, a atitude "rebel cool" do terceiro. Mas, diante de "To Whom It May Concern" (ed. EMI-VC), constata--se que LISA MARIE PRESLEY pouco "aprendeu" com o progenitor Elvis, com Michael Jackson ou com Nicolas Cage. "Rock" banal, a que a produção de Eric Rosse tenta em vão dar algum brilho, voz com muito "medicamento" de estúdio. Bem pode dizer-se que esta "filha de peixe não sabe nadar…" Iô! n Confesso que a rapariguinha, apesar da exposição generosa, me valeu sempre a desconfiança. Por arrastar alguns dos clássicos que nos enchem as medidas (Bach e Vivaldi) para terrenos duvidosos – não é purismo, é bom senso… Agora, com apenas 24 anos, VANESSA MAE perde o estatuto de menina-prodígio e já se vê obrigada a publicar um "Best Of" (ed. EMI-VC) que reforça essa ideia do enorme equívoco. O facto de não haver mesmo obras acabadas não significa que se possa impunemente "acabar" com elas.
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