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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Abril de 2012 às 01:00

Não há coisa que mais descredibilize um político do que a sua permanente fuga à realidade, o seu continuado divórcio dos factos e das pessoas, a sua incapacidade para agir, falar e decidir com verdade. Apesar disso, multiplicam-se os casos em que se percebe que uma parte significativa dos nossos políticos fala sem sinceridade e decide sem autenticidade. Agem como robôs, vociferando muitas vezes uma retórica pré-fabricada sem adesão à realidade e deliberando amiúde sem o menor respeito pela inteligência dos seus concidadãos. O País acaba normalmente a pagar uma factura elevada por este autismo pérfido e perigoso.

O pedido de ajuda externa, requerido há um ano, se tivesse sido feito mais cedo teria poupado o País a vários sacrifícios. Mas não foi porque Sócrates andou meses e meses a fugir à realidade, mentindo a si próprio e ao imaginário colectivo. Apesar de a austeridade ser o único caminho para endireitar um país que passou anos a viver acima das suas possibilidades, uma parte dos políticos recusa-se a reconhecer esta verdade só para não desagradar. Ao fim de um ano de troika, os sinais de que Portugal está a cumprir vão-se sucedendo. Apesar disso, as oposições fogem a reconhecer a realidade, apenas e só porque se convencionou de forma idiota que ser oposição é dizer o contrário daquilo que diz o Governo. Este, por sua vez, embrulha-se numa trapalhada sobre os subsídios de férias e de Natal, apenas e só porque não quer reconhecer que foi desastroso na gestão política deste dossiê, assim ferindo a sensibilidade de funcionários e pensionistas.

Enquanto o mundo da política teimar em ser uma réplica do mundo do futebol, a situação não melhora. Porque o clubismo partidário não faz bem ao País, porque a querela Governo-oposição não pode assemelhar-se à cegueira de um Benfica-Sporting, porque é calamitoso que a lógica das claques dos clubes sirva de inspiração à cultura dos tiffosi partidários, porque dos responsáveis políticos exige-se a honestidade intelectual que não se vê no dirigismo desportivo. Em suma: os políticos até podem continuar a fugir da verdade e da realidade. Nesse caso, os cidadãos fugirão ainda mais da política e dos políticos. Será difícil perceber isto?

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