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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Dezembro de 2002 às 00:00
Começa a ser deprimente a forma como se desenvolve o processo para legitimar uma guerra no Iraque. Mesmo o mais estúpido dos observadores percebe que se anda à procura de um pretexto para desencadear a guerra e de um argumento para juntar os chamados "aliados".

Os americanos construíram, sem dúvida, um grande país e souberam levar o progresso e o bem-estar à maior parte da sua população. Hoje constituem uma referência cultural incontornável para todos os povos, qualquer que seja o seu grau de desenvolvimento. Exactamente por isso esperar-se-ia que o atropelo às regras da convivialidade planetária não surgissem desse povo que se forjou numa unidade de muitos povos exprimindo um multiculturalismo sem par.

Mas, infelizmente, para os americanos abriu a época da caça. Está tudo a ser preparado para a grande matança. A desproporção de forças é tão grande que quando se inventar o pretexto o mundo vai assistir ao espectáculo da guerra. Vai dar para tudo. Experiências de novos equipamentos e de novas armas. Tiro ao alvo. Bombas, carros de combate, um arsenal arrepiante que não deixará pedra sobre pedra em terras iraquianas. A primeira experiência americana naquele território foi terrífica - quem se esquece daquela "estrada da morte" onde foram sepultados no asfalto milhares de jovens iraquianos mais as viaturas em que seguiam. Agora, por decisão do novo senhor do mundo e da guerra é preciso ir mais longe, entrar nas cidades milenárias do Iraque, depor o antigo aliado americano, Sadam Hussein. Mulheres, crianças, jovens, velhos vão ficar debaixo dos tanques ou trespassados pelas balas ou rebentados por quaisquer bombas de deflagração…que importa isso.

Eu percebo a fúria americana e partilho a sua dor e raiva quando em 11 de Setembro viram o horror da acção de grupos terroristas estuporados matarem gente inocente e destruírem património americano. Acho que todos chorámos nesse dia ao ver aquela acção bárbara praticada por gente sem princípios, carregada de ódio e desprezo pela vida humana. O que eu não queria ver agora era a vingança americana, repetindo a mesma matriz de violência e total desrespeito pelas regras das Nações Unidas, praticada sobre um povo que até pode ter tiranos no topo da hierarquia do Estado mas que não deve ser humilhado e espezinhado. Dizem as agências noticiosas que os inspectores da ONU já visitaram 188 locais suspeitos e não encontraram armas proibidas. Estes resultados tiram os americanos do sério. Ainda não há pretexto mas o dedo no gatilho é mais forte que a razão. Talvez por isso ontem aviões americanos fizeram uns raids. Diz-se que para destruir um centro de comunicação, a sudeste de Bagdad. Mas o resultado mais visível é a morte de três civis e ferimentos em mais dezasseis.

Custa-me a aceitar esta justiça dos poderosos que querem arrumar a casa dos outros. Pôr e depor presidentes. Mudar regimes. Com pretexto ou sem pretexto.

A América que eu amo e que aprendi a respeitar não é esta que usa os mesmos métodos do Bin Laden. A América (e todos os aliados) deve combater sem tréguas todos os tipos de terrorismo. Mas não pode usar nem os mesmos argumentos nem os mesmos métodos. E sobretudo não pode, para satisfação interna, lançar uma guerra sem apresentar sólidas justificações. 2003 vai começar assim sob o signo da destruição.
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