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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

A GUERRA E A FESTA

E pronto, ao cabo de três dias o Iraque está feito num oito. Poderosos soldados contra maltrapilhos. Assim também eu.

Francisco Moita Flores 23 de Março de 2003 às 00:41
Ao cabo de três dias de directos, indirectos e diferidos, de informação e contra-informação, de notícias repetidas até à exaustão, de bombardeamentos e explosões examinadas por todos os lados, de elogios à 'onda de aço' – o monumental exército americano – que até agora, tendo em conta os soldados que se renderam, defronta um exército de pelintras e sem armas. Ao cabo de três dias de grandes excitações sobre o perigo das armas químicas iraquianas, com repetições infinitas de patetas pondo e tirando máscaras, mas sem que paire no ar o mínimo gás mortífero a não ser os milhões de litros de combustível queimados por milhares de F-17, F-18, 19, 20 e Fs até ao infinito, de notícias confirmadissimas que dão conta que o ditador Saddam foi ferido, que foi morto, que talvez não esteja morto mas só ferido, mas agora, informação de última hora, não está ferido mas não terá sido ele quem apareceu na televisão embora a CIA diga que foi mas pode não ser, e já agora, vamos ver mais uma vez, pela quinta vez o maior bombardeamento sobre Bagdad feito depois do último maior bombardeamento.

Ao cabo de três dias de avanço triunfal das gloriosas tropas americanas – longa vida aos seus generais – oiçamos o perito estratégico, o perito balístico, o perito e o contra-perito e passemos aos comentários, aos que estão contra e refilam, aos que estão a favor e rejubilam orgasmos por cada bomba que põe Bagdad a arder e, como se sabe, temos de chorar dezasseis mortos americanos. E agora fala o presidente, o nosso querido e bem amado presidente, em nome de Deus e da América, e depois mudamos de canal que, embora ame o presidente, aquele sotaque texano do chefe irrita-me. E pronto, ao cabo de três dias o Iraque está feito num oito. Poderosos soldados contra maltrapilhos. Assim também eu. Mas afinal o Saddam é capaz de estar morto, muito embora em rodapé esteja vivo. Talvez ferido. Não se sabe, até porque os marines da 5.ª divisão, a 105.ª aerotransportada, para além do 7.º de cavalaria estão já em solo iraquiano e, portanto, contra os herdeiros de John Wayne no seu melhor estilo não há nada a fazer.

No entanto, Bagdad, a terra dos nossos sonhos de meninos, do Ali Babá, da Mesopotâmia, a pátria onde nasceu a escrita e o futuro que é hoje o nosso presente, governada por um ditador, está a ser estilhaçada por bombardeamentos de fogo e morte a mando de um 'cow-boy' que ali quer afirmar o seu poder e atingir mais de perto o seu maior inimigo: a Europa unida. Mas que importa? vamos repetir pela nona vez o bombardeamento de hoje à tarde e alegremo-nos com os primeiros desertores iraquianos, e não esmoreça o acto pátrio de ouvir, beber e reflectir sobre as sábias palavras do nosso amado Presidente Bush. Comprem as revistas de televisão para saber a que horas fala e obriguem filhos e enteados a ouvir, a aprender como se conquista de forma tão nobre e guerreira na boa tradição dos antigos mandarins e cavaleiros da Távola Redonda.

E choremos os mortos americanos e ingleses. Choremos os nossos irmãos que partiram. Pois não há nada mais a chorar. Como se sabe, por aquilo que não se disse, do lado iraquiano ainda não morreu ninguém. Nem soldados, nem mulheres, nem velhos, nem crianças. Tudo aquilo é tão cirúrgico e tão perfeito que só pode ferir ou matar o ditador Saddam. E pronto. Não tenho mais nada a dizer sobre a guerra. Apenas que não entendo. No início do século XXI não produzimos dirigentes inteligentes para vencer o horror dos horrores, perpetuando a violência e a política predadora e mortífera como a mãe de todas as políticas. Afinal de contas, não passamos de pobres bárbaros medievais. A História não valeu a pena!
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