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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Setembro de 2003 às 00:00
Senão vejamos: do primeiro (de ’91, com êxitos absolutamente incontornáveis, como "Crazy" e "Killer") para o segundo (que lhe valeu, entre outros dividendos, um clássico chamado "Kiss From A Rose"), ficou marcado um lapso de três anos. Daí até "Human Being" (’98), voaram mais quatro. Agora, já se desesperava pela continuidade de uma carreira que serviu para afirmar muito mais do que uma voz carismática, entre os que sabiamente sabem misturar a "pop", a "soul" e todos os géneros adjacentes, com limites apenas marcados pelo bom gosto.
"Seal IV" (ed. Warner) não é, sequer, o disco que estava "previsto". Seal explica isso mesmo, sem "camuflagens": "Escrevi e gravei um álbum diferente. Mas, quando tudo estava pronto, concluí que não era suficientemente bom. Levou-me algum tempo a aceitar o falhanço e outro tanto a ganhar distância para recomeçar. Mas esse passo em falso ajudou-me a chegar aqui. Permitiu-me começar de novo e, em simultâneo, aplicar a experiência…". Valeu a pena a espera. Porque "Seal IV" é feito daquela "massa" de que se alimentam os registos "condenados" a durar temporadas, daqueles a que regressamos sem medo de nos termos deixado levar pelo "barulho das luzes" em escutas anteriores. Ainda por cima, parece regressado ao pleno das respectivas faculdades um dos magos da produção de épocas idas, um senhor chamado Trevor Horn, que troca o efeito fácil pela consistência, que "faz a cama" em que o cantor acaba por deitar-se.
Ao longo de "Seal IV" (cujo primeiro single, "Get it Together", não deixará de contribuir para a subida outonal da temperatura nas pistas de dança que passem canções e não "marteladas", sendo de prever que se lhe siga "Love's Divine"), uma das grandes delícias é nunca se adivinhar os caminhos trilhados pela canção seguinte. Uma espécie adulta e criativa de "jogos sem fronteiras", sem perder de vista a ideia de que este é também um homem de heranças. É só ir levantar os véus: há baladas (como "Touch" e "Tinsel Town") que não calhariam nada mal no portentoso "portfolio" de Marvin Gaye; há um balanço (como o do arranque e do arranjo de metais de "Waiting For You" ou ao longo de "Loneliest Star") que remete para os melhores momentos de Stevie Wonder. Há Filadélfia e Detroit, há muito "funk" e algum "reggae", há temperos dignos de Curtis Mayfield ou do "ressuscitado" Solomon Burke. Isto sem prejuízo de um "máximo denominador comum" que é a voz do protagonista, em si mesma uma imagem de marca, imitada (veja-se o esforço desesperado da metade cantante dos Lighthouse Family) mas nunca igualada.
Em época sincrética, cheia de vielas e becos sem saída para a música negra, é bom perceber que ainda há quem não faça do "crossover" uma obsessão, mas não vire a cara a discos como este, em que o reencontro com as raízes não exclui uma base de entusiasmante modernidade nem passa ao lado do mais feliz dos formatos populares: a canção. O selo de Seal está intacto e este álbum mostra que o seu lacre continua a ser único. A vantagem é que se pode "viajar" lá dentro. Basta querer.
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