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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Maio de 2005 às 00:00
Modelo ameaçado. Quase meio milhão de portugueses sem emprego, várias centenas de milhar em situações de trabalho precário e muitas dezenas de empresas a ameaçar com despedimentos colectivos e a fechar as portas, porque não conseguem competir com a concorrência externa, é um retrato negro do mundo laboral neste 1.º de Maio. E a estagnação económica que abafa o País não permite acreditar que no próximo ano as coisas estejam melhores. Antes pelo contrário.
A indústria dos têxteis, que ainda é a maior empregadora, vai assistir a uma aceleração da vaga de falências. As melhores empresas, as que apostaram em marcas e dominam canais de comercialização, vão sobreviver, mas são uma minoria num imenso quadro de fábricas que apenas vendem minutos de trabalho repetitivo para a Europa e que agora não conseguem competir com as empresas de Leste ou da China. Ainda esta semana Cavaco Silva lembrava que na Roménia, um dos países que brevemente integrará a União Europeia, o salário mínimo mensal é de 75 euros. Mas ao lado da Roménia, na Moldávia esse salário já é ambicionado por grande parte da população. E os 40 ou 50 euros de salários dos moldavos fazem inveja a muitos chineses que trabalham a um ritmo desumano nas fábricas.
Este ‘dumping’ social vai matar o tradicional modelo económico português que se baseia nos baixos salários e nas baixas qualificações dos trabalhadores. E a ameaça não é só no sector têxtil ou no calçado. Os casos da Philips e Ysaki Saltano, no distrito de Aveiro, ou da Alcoa, e de muitas outras empresas eléctricas no distrito de Setúbal, mostram que esta ameaça é generalizada.
Choque educativo. Portugal precisa de empresas mais inovadoras, com marcas fortes e com poder nos circuitos de comercialização. E para isso é necessário que haja excelência a nível de empresários, gestores e trabalhadores. Mas não há excelência, sem exigência nem trabalho e isso deveria começar a ser ensinado cedo nas escolas. Mas o sistema escolar que dá diplomas a quase analfabetos, como se fosse um grande feito apenas frequentar as aulas e em que a matemática se transformou num adamastor contemporâneo, tem de mudar rapidamente.
A revista ‘Domingo Magazine’ conta hoje a história de Lilian, um rapaz moldavo que está há 4 anos em Portugal e não é só o melhor aluno da turma como é também o melhor a Português. Lilian vem do tal país em que os 75 euros da vizinha Roménia são invejados, mas tem um sistema escolar que prepara melhor que o nosso. Se a Educação portuguesa não mudar, as gerações mais novas continuarão a viver num dos países mais pobres da Europa e arriscam-se a invejar os salários dos seus concorrentes de Leste.
Deserdados. Dizem que a solução passa pelo choque tecnológico, mas para centenas de milhar de pessoas com mais de 40 anos e com habilitações escolares mínimas, incentivadas a deixar a escola no final da quarta classe, porque já sabiam ler, escrever e contar, e havia que ganhar dinheiro para sustentar a família, o choque tecnológico é um assunto tão distante como uma dissertação sobre física quântica. Eles serão os deserdados do choque tecnológico.
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