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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Abril de 2007 às 09:00
José Manuel Fernandes acordou, de repente. E lembrou-se agora, ontem, de uma crónica minha escrita há mais de um mês. Faz um editorial indigente, com a colagem descontextualizada de excertos de escritos diversos, desde sentenças de tribunais a colunas de opinião, para concluir que há duas formas de encarar a liberdade de imprensa – uma, a dele, a que valoriza a liberdade. E outra, a minha, a que considera a liberdade um perigo.
A visão vesga e canhestra do director do ‘Público’ resulta certamente da trajectória política que fez da extrema-esquerda até aos territórios do PSD, onde se acolheu com grande oportunidade e oportunismo. Eu poderia provar que estive sempre na primeira linha do combate pela liberdade de imprensa (e não encontrei lá o Fernandes), tantas foram as ocasiões em que abertamente me bati por esses valores, com governos de direita, de esquerda ou de centro. Mas não vou fazê-lo porque não chegava o espaço desta crónica para enumerar as ocasiões em que enfrentei manipuladores e controleiros, em defesa da liberdade. Paguei um preço alto por essa frontalidade. Não vou também alargam-me sobre o que já muita gente reconheceu, nomeadamente jornalistas de mérito, a respeito daquilo que consideraram os espaços comunicacionais de maior liberdade vivida em Portugal – a TSF, a SIC e a SIC Notícias, criados e dirigidos por mim. Limito-me simplesmente a sublinhar, por tudo isso, que não recebo lições de ninguém a respeito da liberdade, muito menos vindos do director do ‘Público’, de muito duvidosa carreira jornalística. Mas o que é mais decisivo neste editorial é chamar a atenção para a tentativa demagógica de confundir liberdade com irresponsabilidade, espezinhando direitos tão decisivos como o direito ao bom-nome, à honra e à dignidade de cada pessoa.
Defendo a liberdade de imprensa e de informação com muito empenho mas, com o mesmo empenho, os direitos fundamentais dos cidadãos numa democracia avançada e numa sociedade com grandes fluxos informacionais. A liberdade de imprensa não confere aos jornalistas o direito de lançarem insinuações difamatórias contra quem quer que seja porque os efeitos deletérios dessa libertinagem têm um impacto destruidor tão profundo que não há reparação posterior que lhes valha.
O que o ‘Público’ fez contra Sócrates é uma campanha sinistra, executada, em meu entender, por razões políticas gizadas com grande calculismo no tempo, no estilo e no efeito de repetição. O bom jornalismo não consente campanhas contra ninguém. É ética e deontologicamente reprovável. Em países como a Grã-Bretanha ou os EUA o ‘Público’ e Fernandes pagariam tão caro o atrevimento, a afronta, a insídia e a violação das leis que não repetiriam o acto.
Não subscrevo uma parte significativa das soluções políticas do Governo para a área da Comunicação Social mas jamais alinharei ao lado de pessoas como José Manuel Fernandes que acham que a liberdade de imprensa serve para fazer ajuste de contas e que as ‘notícias’ devem ser guardadas no ‘paiol’ para serem atiradas ou não, como morteiros, contra os inimigos políticos consoante a maré vaza ou enche. O bom jornalismo serve só a verdade e só tem um ‘patrão’ – os cidadãos.
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