Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
7 de Setembro de 2003 às 00:00
O tema, “Stop”, é categórico: o baixo de Robert Turner é demolidor, a bateria de Nick Jago opta por não dar tréguas, a guitarra de Peter Hayes passa por movimentos quase demenciais, a voz veste o seu fato mais “blasé”, a melodia e o ritmo são despudoradamente simples, o texto não admite prisões ao bom senso ou ao bom gosto, antes optando pelo exagero próprio de uma idade e de uma atitude: “We don’t know where to stop/I try and I try but I can’t get enough/I don’t fail you but you won’t bleed for me”. Provocadores e indisponíveis para medalhas de bom comportamento, os Black Rebel Motorcycle Club não podem deixar de evocar o “I Can’t Get No Satisfaction”, dos bons velhos Stones.
Nascida em São Francisco e “habitante” da grande metrópole que é Los Angeles, a “troika” reincide em novo disco, “Take Them On Your Own” (ed. EMI-VC), nos argumentos que lhe valeu destaque e festa em torno da estreia, com “B.R.M.C.”, de 2001. Ou seja, para os que gostam do “mastiga e deita fora” pecam por falta de evolução, por não rubricarem mudanças. Por mim, prefiro pensar, com a ajuda das canções (que são 13 na edição europeia e 12 na norte-americana, privada de “Going Under”), os rapazes ainda estão a formar uma personalidade própria e a dar largas a um entusiasmo e a uma consistência que, em momentos sucessivos, quase assumem o papel de manifesto. Confesso: de quando em vez, fazem-me falta discos assim, transparentes de intenções, combativos de carácter, com guitarras contestatárias e textos que, sem disso fazer gala, acabam por valer como trunfos no “desalinhamento” que ainda é um tempero essencial nesta matéria.
Infelizmente, não há como os “círculos exteriores” da indústria para desatarem a coleccionar referências e comparações que, tantas vezes, acabam por restringir o raio de alcance das novas bandas. Vale a pena tomar nota: desde “B.R.M.C.”, mas ainda mais agora, o grupo já foi “encaixado” como discípulos e/ou continuadores dos Jesus & Mary Chain, dos Primal Scream, dos Stooges, dos MC5, dos Stone Roses, dos Beach Boys (!) e dos Oasis (!!), o que a convergir para a verdade, faria deles uma espécie de “herdeiros universais”. E tudo isto por causa de factos (as letras) e guitarradas…
Conta mais, julgo, a circunstância de, sem artefactos nem truques, os Black Rebel Motorcycle Club se assumirem como uma banda de identificação (até pela negativa: “I’ve been feeling alone in this generation/I ain’t found the need and I ain’t found the reason/I got nowhere to go in this generation”, de “Generation”) e de contestação (”There’s no US save your mind/Save your mind come on”, de “US Government”). Apaixonante, até pelas imperfeições e exageros, com canções para as melhores memórias, como “Six Barrel Shotgun” e a inesperada “Shade Of Blue”, além das citadas, está aqui um dos álbuns-chave para uma reentrada - como se diz agora - a preceito. Mais em força do que em jeito, mas ele há mesmo dias (e discos…) assim. Desde a estreia dos Strokes que, do lado de lá do Atlântico, o “rock” não dispunha de uma prova de vida tão evidente como esta. E isso chega e sobra para não deixar de a ouvir.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)