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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Março de 2005 às 17:00
É estimulante verificar que o programa do Governo concede uma importância especial à política de combate à pobreza, com especial atenção para os idosos. A situação é tão grave e tão presente no nosso dia-a-dia que a maior parte de nós já nem dá por isso.
Mas é um facto que uma parcela da população portuguesa vive com enormes dificuldades, abaixo do limiar da pobreza. As notícias vêm nos jornais com frequência. Famílias encaixotadas num ‘bidonville’, crianças que ficam dias inteiros sem comer, velhos abandonados nos hospitais ou em casas de repouso à espera da morte. A sociedade portuguesa desumanizou--se bastante nos últimos anos. Ninguém vive com problemas de consciência com este retrato.
Há um espírito “salve-se quem puder” que vai atirando para trás das costas os problemas de terceiros e nos transforma em egoístas a tempo inteiro. Felizmente há excepções e tem significado o trabalho de pessoas e instituições como o ‘Banco Alimentar Contra a Fome’, que nos redime um pouco deste desprezo a que são votados concidadãos nossos que vivem na mais completa miséria. Entre todos, o que causa maior impressão é a situação dos idosos. A família tradicional descaracterizou-se.
Antigamente, os filhos ocupavam-se dos pais quando já não podiam trabalhar e a doença minava os seus corpos. A vida nos dias de hoje levou as famílias para duas assoalhadas num dormitório qualquer nos arredores de Lisboa, onde já não há lugar para os pais. Por vezes, a situação agrava-se porque os filhos permanecem mais tempo em casa dos pais porque não há primeiro emprego para a maior parte deles. As famílias emparedadas entre estas duas realidades vivem dias de desespero.
Os nossos velhos são ostracizados e vivem na mais triste solidão. Têm reformas que não chegam para os medicamentos e quase não conseguem sobreviver nesta selva. Alimentam-se mal e passam bastante tempo do dia a falar para as paredes vazias das suas casas ou dos seus quartos. Ninguém lhes dá importância. Os filhos esquecem-se deles, um horror, e os dias passam sem que apareça alguém de boa vontade.
Quando as forças não chegam para subir as escadas dos seus prédios sem elevador (há prédios de velhos do primeiro ao último andar), nem conseguem ir buscar à mercearia da esquina as batatas para matar a fome. Ou um vizinho faz a boa acção do dia ou a noite chega sem nada no estômago. É um cenário deprimente que nos interpela a todos como cidadãos deste País democrático onde é suposto existir justiça social. Os velhos não protestam. São silenciosos por natureza.
Não têm capacidade política de revolta contra este estado de coisas e por isso o seu sofrimento fica contido nos seus corações frágeis. Se o poder não se lembra deles acabam os seus dias na mais intolerável das desgraças. Felizmente, o Governo agora empossado inscreveu como prioridade a ajuda a esta faixa da população idosa que vive ou sobrevive com poucos recursos. O combate à pobreza, em especial dos idosos, é uma urgência nacional. Mas esta é tão-somente uma bóia de socorro. A sociedade portuguesa que perdeu muitos dos seus valores tem de passar por uma fase de regeneração, porque um País que abandona os seus velhos não pode viver em paz.
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