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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

A maldição dos mortos vivos

O depoimento da Dr.ª Catalina Pestana continua a ser uma saraivada de tiros que aos poucos vai desnudando a tese, que aqui tantas vezes temos defendido, embora nem todos a queiram compreender, de que o julgamento da Casa Pia está incompleto, e mais do que um caso judiciário, é um pesadelo. Um pesadelo que é nosso.

Francisco Moita Flores 19 de Março de 2005 às 00:00
Que durante décadas passámos ao lado sem conhecer, sem ter um pouco de atenção para saber o que ali se passava. A própria Catalina faz o seu acto de contrição. Estava lá dentro e de quase nada se apercebeu. Mas sabe as razões que a levavam a não perceber. O célebre pacto de silêncio entre os rapazes mais não era que a analogia de um outro pacto de silêncio sobre quem geria e detinha o poder na Casa Pia.
Não sei quantos arguidos estão a mais ou estão a menos naquele banco dos réus. Mas sei, há muito tempo que disso desconfiava e Catalina confirma, que quem tinha a responsabilidade maior sobre os destinos dos miúdos, calava, consentia, ameaçava quem denunciava, afastava quem via. E porquê? Pergunta-se. Procissões de provedores, uns já mortos, outros ainda vivos, que sabiam, que calavam, que com o silêncio consentiam. Em tudo. Nas perversões sexuais internas, na promiscuidade e prostituição externas. Em todos os espaços clandestinos da cidade.
Calaram-se. E com eles viveu sempre calada uma opinião pública, indiferente aos destinos de crianças desvalidas, submetidas aos pactos de silêncio do poder que as dirigia, que tinha a obrigação de as proteger, de as educar, de lhes acrescentar mais um pouco de felicidade.
Eu sei que este é um dos problemas mais melindrosos deste processo. Poucos se atrevem a falar nele, muitos tentam calar quem dele se lembra. Mas não pode a retórica barata esbater esta incontornável e trágica realidade: os grandes responsáveis por tudo aquilo que aconteceu estão escondidos, mortos, reformados ou simplesmente escondidos. E tranquilos. Nunca ninguém lhes fez a pergunta assassina: Porquê? Se as vossas funções, que juraram, as vossas responsabilidades, que ignoraram, eram ser encarregados de educação dessas crianças e não os seus carrascos. Porquê?
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