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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Novembro de 2006 às 00:00
Beirute reincendeia-se, quando chegam engenheiros militares portugueses, soldados de paz.
O cenário é, para muitos, um ‘déjà vu’. A sucessão de assassínios, sem julgamentos nem réus, faz parte da história libanesa dos últimos 30 anos.
Pierre Gemayel era maronita. Com os nestorianos, ou caldeus católicos, trata-se de uma das mais antigas denominações cristãs, em terras do Islão maioritário: ‘in partibus’, como antes se dizia.
Gemayel era ainda neto do fundador da Falange (Kataeb), um complexo (alguns dirão contraditório) partido do Médio Oriente. Antifrancês, antiturco e anti-sírio, modelado no Nasserismo egípcio e no nacional – socialismo alemão, aliado secreto de Israel, proclamava o “excepcionalismo” libanês, na coexistência pacífica de católicos orientais e muçulmanos.
Pierre era também filho e sobrinho de dois ex-presidentes, Amin e Bashir. Este foi uma lenda viva da resistência anti-síria, militante falangista e mito da batalha de Zahleh, implicado mais tarde nos massacres de Sabra e Shatila.
Bashir morreu violentamente em 1982. Amin ainda vive, e chora agora o seu filho. Mas quem o matou?
Um sector securitário sírio, desejoso de embaraçar o presidente Assad? Partidários do rival cristão Michel Aoun? O Hezbollah e os seus patronos, para fazer cair o governo? “Agentes estrangeiros”, interessados em culpar Damasco?
No Líbano, o problema é sempre este: demasiados suspeitos, demasiados motivos.
PEDRO E O SULTÃO
Bento XVI, nas sandálias de Pedro, parte para o antigo império da Grande Porta, hoje uma República constitucional, secular, europeia e ocidental.
O Vaticano salienta o encontro ecuménico com os patriarcas ortodoxos, em Istambul, como a grande esperança desta peregrinação. O governo de Ancara insiste em que se trata de uma visita de estado, há muito marcada, de grande importância política bilateral, e elemento-chave na ‘aliança das civilizações’.
Esta iniciativa de diálogo, nascida de uma ideia turco-espanhola, foi proposta a Koffi Annan como política da ONU, há uma semana.
Embora se diga que Ratzinger acha menos urgente a fala com o Islão, do que entendia Woytila, haverá aqui, certamente, uma oportunidade única para desiludir os críticos.
MISTÉRIOS
Especialistas em drogas, micro-armas e truques sujos. O Polónio 215, que não costuma vender-se na feira. Agentes duplos e triplos. Scaramella, um magistrado – professor –, perito – assessor parlamentar –, agente secreto, um bar de sushi, um ‘e-mail’ estranho, uma conversa nervosa. O envenenado Alexander Litvinenko, ex-agente do KGB, do FSK e do FSB, colaborador do exilado Berezovsky, amigo da assassinada Ana Politovskaya.
Cadáveres nos armários, ecos de John Le Carré, Robert Ludlum e Ian Fleming.
Reúnem de urgência o gabinete de crise COBRA, o SO15/CTC da Yard, o MI5.
As teses sobre quem ganha, e quem perde, com esta morte macabra, são imensas. E, a exemplo da Guerra Fria, não há pistas claras. Apenas sombras.
Como dizia Churchill, metade das mentiras à solta no mundo é verdade.
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