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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Setembro de 2003 às 00:00
A Marcha Branca recordou, a quem porventura o tivesse esquecido, que a pedofilia existe, merece repulsa e tem de ser julgada, em todas as suas vertentes, da associação criminosa ao vício indigno, passando pela exploração comercial. Nesse combate pela Justiça estão a maioria dos portugueses, que entendem e apoiam o funcionamento de todos os mecanismos de defesa dos cidadãos, seja no Tribunal Constitucional ou outros, mas que esperam que este nojo não acabe da mesma forma que o processo das FP-25: só com “arrependidos”, sem qualquer criminoso julgado em crimes de sangue, sem sinais de inquietação por parte dos políticos e com culpas do Ministério Público…
O presidente do Tribunal da Relação de Lisboa estava enervado? Doente? Tinha alguma razão particular contra a jornalista da SIC? Não gosta mesmo de dar entrevistas e não quer realmente ser filmado? Fosse o que fosse. Manuel Silva Pereira deu uma péssima imagem da Justiça. Um Juiz Desembargador não é, não pode ser, “aquilo”. E “aquilo” foi uma cena de má educação, quase arruaça, num espaço onde o Supremo comemorava uma data importante. O País viu, sobretudo ouviu (“não há conversa ou parto essa merda toda”) e copiou a cara de espanto de outros Desembargadores. O Poder Judicial vai transportar durante algum tempo o ónus deste tão triste quanto caricato episódio.
O episódio do helicóptero de Lamego é sintomático de um certo País, espertalhaço e desleixado, que vive de expedientes, é intrinsecamente incompetente e se presume inimputável. É, também, exemplo do muito que a comunicação social pode significar para a democracia: uma câmara oculta da SIC fez em cinco minutos aquilo que uma investigação policial demoraria muitos meses a fazer, correndo o risco de um arquivamento por força dos conluios e das pressões. Agora vamos entrar na fase dos inquéritos e da conversa “fiada” mas os dinheiros públicos, porque o ministro vê televisão e foi rápido a agir, já não andam a voar ao arbítrio da sociedade da paróquia.
Primeiro, por causa de uma afronta de um ex-governante, deixou o País. Depois, nas últimas eleições legislativas, “ameaçou-nos” que deixaria de representar Portugal se o PSD voltasse ao Poder. Agora, José Saramago confirmou à “Visão” que vai deixar de ser sócio-beneficiário da Sociedade Portuguesa de Autores, a partir do dia 1 de Outubro. Além disso, e na sequência do processo eleitoral do qual a sua lista saiu derrotada, devolve o título de presidente honorário! É uma pena que um homem de tanto talento para a escrita, justamente admirado nessa condição, não abdique de um sectarismo primário sempre que o mundo não se molda às suas convicções. E aos seus interesses.
O prometido é devido: o Ministério da Educação divulgou os números e os diversos órgãos de comunicação estabeleceram os “rankings” que quiseram, na base dos critérios que entenderam definir. As conclusões, no entanto, mais escola menos escola, foram as mesmas: o bom ensino está no litoral, sobretudo em Lisboa e Porto, e é pertença, na esmagadora maioria, dos estabelecimentos privados. Não há surpresa, mas também não deve haver resignação – mesmo que estudos recentes, divulgados pelo “Expresso”, nos informem que mais de 70% da população portuguesa estará concentrada no anel das duas grandes cidades em 2010. A lógica do mercado não tem de ser a lógica do Estado.
Para além das movimentações do clã Soares no PS e do congresso no reino de Portas, o facto político da semana é a subida do Bloco de Esquerda (6,2%) a terceira força nacional, segundo o barómetro “Marktest” para o “Diário de Notícias”/TSF, ultrapassando o PCP (4,9%) e o CDS/PP (4,1%). Será cedo para tomar como definitivos estes resultados, mas eles surgem a materializar uma tendência cada vez mais visível na sociedade portuguesa: o PCP definha por força da obstinação ideológica e o CDS/PP poderá não beneficiar em termos eleitorais com uma prolongada rota na órbita do PSD. Louçã anda a ganhar as elites. A revolução nem sempre parte dos campos e das fábricas.
As eleições do Benfica. Jaime Antunes avançou na data programada, sereno, advogando a renovação e com um discurso inteligente, piscando o olho aos símbolos, Eusébio e Rui Costa. É um homem preparado e que domina a comunicação. Luís Filipe Vieira, o candidato do regime, adiou o anúncio para altura mais propícia. Nem os resultados nem o discurso de Vilarinho sobre os “burros” o aconselhavam a fazê-lo agora. Pelo meio está Fernando Seara, com peso específico e trunfos na mão, auto-retirado das eleições do clube mas considerando a presidência da SAD. Uma associação com o autarca de Sintra daria mais credibilidade ao projecto de Vieira. Mas ambos têm de se despachar.
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