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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Março de 2005 às 17:00
Em entrevista recente o prof. Adriano Moreira, que tanto quanto se sabe, fala sempre a sério, introduziu um novo conceito na análise e filosofia políticas e na definição das relações entre governantes e governados. Conceito de muito difícil compreensão. É ele o de “mentira razoável”. Analisando a questão da mentira dos governantes AM referiu-se-lhe com as seguintes palavras: “As pessoas razoáveis devem pedir aos governos que, não podendo evitar a mentira, não ultrapassem a “mentira razoável”. Atira-nos assim, de supetão, para uma definição do que seja, ou não, razoabilidade, (e pessoas razoáveis ou não razoáveis) questão muito mais complexa do que a da definição de mentira. Que é cristalina.
Não sabemos se por desilusão, se por cansaço, se por impossibilidade de modificar as coisas ou se por qualquer outra razão do seu foro íntimo, Adriano Moreira demite-se. Depõe as armas. Favorece os aldrabões. E institucionaliza a aldrabice. Já não o incomoda o facto de os governos e políticos passarem a vida a mentir. Isso dá de barato. Pede, apenas, que não exagerem. Que não abusem. Que mintam, apenas, de modo a enganar papalvos ou cidadãos menos informados. Transfere a questão da mentira dos políticos do campo da ética para o da semântica frasal. Da apresentação. Da cor do papel em que vem embrulhada.
O Professor cria, assim, por sua conta e risco, uma espécie de licença de uso e abuso da aldrabice, destinada a todos quantos só com ela sobrevivem. Mas que pode usar, também, em proveito próprio. Se, como ele pede, o confrontarem, apenas, com “razoáveis” mentiras sentirá menos a figura de parvo que todos fazemos quando somos presenteados com elas. Embora a mentira seja sempre mentira e a sua agressividade esteja, sempre, presente, a mentira “razoável” permite que durmam melhor todos quantos estejam dispostos a aceitar este conceito inovador. E até que possam manter-se, sem grave dano, aparente, no campo dos mentirosos. Deixar-lhes o terreno livre. Não passa de uma ficção destinada a funcionar como providencial para quedas de todos os aldrabões.
Grande lição a do veterano professor.
Ficámos, ainda, a saber que há governos que não podem evitar a mentira. Já sabíamos que mentiam. Porque mentem, também. Ficámos, agora, a saber que a mentira é uma fatalidade a que os governos não podem fugir. Coitados.
E perante tão espantosa descoberta que, até aqui, nos escapara não faz sentido insurgirmo-nos contra as mentiras dos líderes nacionais ou internacionais por mais escandalosas e descaradas que elas sejam. Teremos, apenas, de entrar no jogo da razoabilidade. Gente razoável é assim! Condescende. Perdoa. Entra no jogo. Torna-se cúmplice.
Arriscando a ousadia de me considerar um homem razoável, que recusa pactuar com qualquer tipo de mentira, peço, respeitosamente ao ilustre professor que pondere a sua própria razoabilidade.
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