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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Outubro de 2006 às 00:00
1 Já foi há dezasseis anos mas ainda hoje me sinto invadido por uma certa angústia quando penso na doença que me atormentou nesse ano de 1990 e que dava pelo nome de tuberculose.
O curioso é que quando dois médicos meus amigos, em pleno Hospital de Santa Maria, me deram a notícia do que eu tinha, depois de me terem feito uma punção ao líquido da pleura, fiquei tão satisfeito que fui comemorar, não a doença que tinha, o que seria absurdo, mas as doenças que não tinha e que constavam das possibilidades diagnosticadas – o cancro ou a embolia pulmonar.
Ou seja, a tuberculose aparecia como o menor dos males possíveis. Era uma doença bem conhecida e sobretudo uma daquelas para que a medicina tem um tratamento testado e validado.
2 O tratamento a que fui sujeito e o acompanhamento que este requer são a chave para que a doença seja debelada, o que ocorreu com cerca de nove meses de medicação. Esta que, no início foi ensaiada com uma droga que eu não suportei, veio a ter sucesso pleno através da utilização de um cocktail de medicamentos – a isoniazida, o etambutol e a pirazinamida. Sete pastilhas que, tomadas todos os dias, constituíam uma componente importante do meu pequeno-almoço.
3 Neste particular deixem-me dizer que um dos aspectos mais importantes do tratamento é exactamente esta continuidade na tomada dos medicamentos. Nalguns estabelecimentos em muitos países e, suponho que também em Portugal os pacientes são obrigados a deslocar-se diariamente a um centro de saúde, onde tomam os medicamentos à vista de um enfermeiro ou de um técnico de saúde, tal é a importância desta continuidade no tratamento.
Eu, que não sou médico, percebo no entanto que a eventual interrupção do tratamento é seguramente um factor determinante que conduz às variantes resistentes deste famoso bacilo descoberto por Koch em 1882.
4 Nunca tive febre, nem falta de apetite, nem suores nocturnos, nem sequer perdi peso, mas a doença ‘esteve por cá’ e os médicos e eu combatemo-la com sucesso. Ao fim de seis meses, os médicos decidiram que eu devia continuar o tratamento por mais três meses, o que suportei não sem algum incómodo mas ciente de que o combate tem de ser até ao fim.
O pior que pode ocorrer ao doente que contraiu uma tuberculose é pensar a meio do tratamento que já está curado e deixar de cumprir com a prescrição do médico. Quando a doença volta torna-se seguramente muito mais agressiva, se não mesmo mortífera.
5 Este depoimento tem um único objectivo – contribuir para que quem contraia a doença a encare com serenidade mas com a consciência de que corre perigos, sendo estes no entanto função sobretudo da atitude que cada um tiver em relação ao tratamento e ao acompanhamento que a doença exige.
Nota final – Gostaria de deixar duas recomendações. Uma aos médicos, para que nunca se esqueçam de pedagogicamente explicarem aos seus pacientes o que é a doença, como se processa o contágio, como se trata e que consequências pode ter um tratamento deficientemente seguido pelo doente. Uma segunda recomendação é dirigida aos doentes, para que, por mais que lhes custe, nunca deixem de prosseguir com o tratamento.
Com a tuberculose não se brinca.
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