Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
8
3 de Fevereiro de 2005 às 13:00
N a década de 70, os programas eleitorais dos partidos eram ideologicamente fracturantes. Essa divisória, qual Linha Maginot, demarcava claramente os campos PSD e PS.
Na década de 80, as propostas ainda eram suficientemente distintas para que o voto fosse, em muitos casos, uma opção ideológica.
A partir da década de 90, os compromissos políticos deixaram de assentar em balizas programáticas, mas continuaram a servir para identificar a ‘cor’ de cada partido.
A novidade deste século decorre da institucionalização absoluta de outras variáveis, que já vinham progressivamente a ganhar terreno, e hoje são as únicas influenciadoras das opções dos cidadãos eleitores.
Os programas eleitorais já não são carregados de ideologia. As propostas são previsíveis, pouco precisas e anémicas. Esta cortina de fumo coloca o debate político num plano penalizador do bloco não socialista. Em primeiro lugar, porque este exerce o poder, desde 2002, num ciclo económico e social muito negativo. Em segundo, porque o actual primeiro-ministro se tornou, desde o primeiro minuto, no alvo preferido de todas as más vontades dos ‘fazedores de opinião’.
Ora, não há imagem que resista às rajadas permanentes e mortíferas da quase totalidade dos editoriais e comentários dos jornais e canais de televisão de referência.
O debate televisivo marcado para hoje será para Pedro Santana Lopes, a “mãe de todas as batalhas”. Talvez a derradeira oportunidade para inverter a lógica deste combate político.
Contudo, Santana Lopes tem de ter um cuidado suplementar. Não lhe chega vencer o debate. É indispensável que os comentadores assumam nos seus posteriores comentários essa vitória.
Infelizmente, não ganha quem o demonstra no terreno de jogo, mas sim quem os analistas decidem apresentar como triunfador. Por isso, Santana Lopes tem de saber que não lhe chega uma vitória tangencial, necessita de golear. Só dessa forma se colocará ao abrigo das arbitrariedades desses julgadores afectos ao “sistema do apito rosa”.
Aliás, a observação desta pré-campanha, é por si só demonstrativa de quanto se degradou, com o beneplácito geral, o nosso Estado de Direito.
Francisco Louçã, defensor de valores que nada têm a ver com Portugal, insulta tudo e todos, fazendo jus às suas raízes trotsquistas. Apesar de representar apenas 3% de eleitores tem direito a 1 hora na RTP 1, onde faz gala dos seus tiques fascistóides. O mesmo tempo de antena que os dois maiores partidos do sistema político!
Um jovem político socialista com ar petulante e o terceiro ano da faculdade, que nunca teve acesso ao mercado de trabalho, foi ‘estrela’ do ‘Prós e Contras’, perante uma plateia de universitários e empresários! Não há dúvida que o insucesso escolar tem de passar a ser olhado noutra perspectiva!
António Guterres entra na campanha sem que ninguém recupere o seu estatuto de trânsfuga derrotado de há 3 anos! Constâncio critica de cátedra, sem que lhe exijam explicações sobre o seu silêncio cúmplice de 7 anos!
Freitas do Amaral faz pareceres contra o Estado que lhe paga, sem antes ter a dignidade de pedir a demissão! Tudo isto é normal, ou passou a ser normal, no nosso país. A tudo isto chamam Estado de Direito. Tudo isto tem de ser mudado. Radicalmente. Enquanto há tempo para salvar a democracia.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)