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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

A nossa euforia

Para quem já sofreu tantas medidas de austeridade (...), estas férias futebolísticas são merecidas.<br/>

Francisco Moita Flores 24 de Junho de 2012 às 01:00

Estamos a viver um tempo de alegria colectiva com a nossa selecção nacional de futebol, mais ou menos exuberante conforme as paixões, que parece um tempo de férias na aflição das crises que afundam o País. Um intervalo. Um tempo de esquecimento e de descompressão. Mesmo as piores notícias não ganham grande destaque. Pouco importa que o desemprego esteja a acelerar se a grande decisão é saber se o Hugo Almeida vai alinhar, que o falhanço das previsões do défice nos esteja a ameaçar com mais medidas de austeridade se o Cristiano Ronaldo está feliz. Sabe-se que tristezas não pagam dívidas e puxar pela selecção das quinas é puxar por Portugal.

Esta aparente leviandade que procura ignorar as aflições do quotidiano através deste impulso catártico que faz de cada um de nós vencedor nos relvados que a selecção representa é reveladora do que, na dimensão simbólica e emocional, o futebol representa no espaço europeu e particularmente em Portugal. Deixa de ser um jogo para ser um combate. Uma superação de uma dúzia de atletas que assumimos como a nossa própria superação face às dificuldades e à necessidade de vencer, pois só a vitória conta. E, ainda por cima, é nossa sem que tenhamos dado um passo para a conquistar. Sem um único momento de labuta que não seja abrir mais uma cervejola. Uma vitória de onze que é de milhões, determinando horários, conversas, atenções e nervosismos.

Devo confessar que estou contaminado por este entusiasmo. Mesmo sem perceber nada de futebol, e sem paciência para escutar a onda de comentarismo que cruza rádios e televisões pejadas de sábios da bola debitando lugares-comuns, é com expectativa que puxo para que Paulo Bento e os seus atletas consigam um resultado brilhante. Não se resolve nada da dívida pública, é certo. O cerco dos financiadores que emprestam e nos levam o tutano dos ossos continuará implacável. Talvez a bancarrota continue a ser uma ameaça. Mas, para quem já sofreu tantas medidas de austeridade e pontapés na vida, estas férias futebolísticas são merecidas. Nem dá para nos lamentarmos sobre o desaparecimento do subsídio de férias, nem sobre os aumentos que vão pontuando os nossos quotidianos. Pronto. Não escrevo mais sobre miséria. Estamos em férias de euforia. O futebol é esse milagre do coração. Viva a selecção!

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