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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Setembro de 2003 às 00:39
Tal como nós, seres humanos, as notícias têm sua própria personalidade. Podem ser introvertidas ou extrovertidas, modestas ou arrogantes, tímidas ou corajosas. Há, sem qualquer espécie de dúvida, notícias que primam pelo decoro, outras que, no mínimo, serão despudoradas, desbragadas ou espalhafatosas. Tudo isto terá a ver, claro, com a essência dos acontecimentos que relatam, mas também com a criatividade do seu autor e, em último caso, com a oportunidade e o local da sua publicação – se a página a que está destinada é ou não a primeira, se é uma página par ou uma ímpar, se o título merece três ou quatro colunas, ou duas, ou apenas uma. Todos estes aspectos, e alguns mais, condicionam a notícia. Qualquer profissional no activo tem disso plena consciência, como a terá quem alguma vez, como é o meu caso, ocupou a sua banca de jornalista numa Redacção e é agora mero colaborador, um cronista, de certo modo um ‘outsider’.
A mais implacável condicionante da notícia é a chamada falta de espaço. E não poucas vezes o repórter obtém uma "cacha" que considera sensacional e se prepara para escrever dois ou três linguados (agora contam-se os caracteres ou as batidas), e as limitações de espaço o obrigam a reduzir ao mínimo a escrita. Há mesmo uma velha máxima que desde tempos imemoriais percorre as Redacções no sentido de hierarquizar a importância dos assuntos: "Um homem ser mordido por um cão não é notícia – notícia é um cão ser mordido por um homem." Como tantos outros, também tomei esta regra a sério, até ao dia em que, algures, um homem mordeu mesmo um cão, e a notícia não mereceu mais de meia dúzia de linhas. Foi a partir de então que reconheci a existência da notícia envergonhada.
No primeiro sábado de Julho (já lá vão, portanto, várias semanas, quase três meses) vi num semanário uma dessas notícias envergonhadas, ensanduichada entre parágrafos de uma outra e facilmente passando despercebida numa leitura superficial. A notícia referia--se a alguns aspectos do diferendo entre o presidente da Assembleia da República e os deputados que viajaram a Sevilha para assistirem ao final da Taça UEFA. Quando parecia já ter sido tudo dito sobre o caso (afinal, não fora) encontrei, para minha surpresa, a tal notícia envergonhada. "Entretanto..." (esta é a fórmula comum para se encaixar um tema novo, mas que possa ter alguma afinidade com aquele que se estava a tratar). Pois "entretanto...", rezava a envergonhada notícia, a deputada Manuela Aguiar, do PSD, escrevera ao dr. Mota Amaral para que fiscalizasse a situação de uma agência de viagens a funcionar junto do Parlamento que, no entender daquela deputada, estaria a praticar preços exorbitantes para os bilhetes e as reservas de hotéis que os serviços da Assembleia da República estavam a pagar. Esta acusação grave de fornecimento de viagens aos parlamentares a uma tarifa mais alta do que a praticada no mercado teria mesmo levado o presidente da AR a determinar uma averiguação.
Ora, uma notícia desta natureza é de molde a deixar-nos preocupados, e por certo mereceria um maior destaque. Mas, critérios são critérios, e não vamos agora discuti-los. O que começa a ser discutível é que, saídas entretanto mais edições dessa publicação, um tema tão escaldante não tivesse ultrapassado a fase envergonhada para ser desenvolvido. Mais discutível ainda é o facto de, anos atrás (não um ou dois, mas vários), já ter sido notícia no mesmo semanário (e então de primeira página) que funcionaria no Parlamento uma agência, com ligações a determinada família política, acusada então, por exemplo, de facilitar as tão faladas viagens-fantasma.
Ignoro se estas notícias (a recente e a antiga) têm algum fundamento, mas é importante que sejam esclarecidas de vez. Mais que não seja, para que não se confunda notícia envergonhada com notícia de uma pouca vergonha.
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