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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Janeiro de 2004 às 01:46
João Paulo II não podia ser mais directo no tradicional discurso de ano novo: o mundo precisa de uma “nova ordem internacional”, baseada na experiência acumulada pelas Nações Unidas, que encontre soluções adequadas aos problemas actuais, respeite a dignidade do ser humano e promova a solidariedade entre países ricos e pobres.
Um discurso simples de encontro a algumas evidências.
Em termos políticos, a era do crescente imperialismo norte--americano não é melhor nem pior do que a resultante da ‘guerra fria’, quando o respeito mútuo e nuclear condicionava dois blocos de forças aparentemente equivalentes. Neste contexto, militar, a Europa ainda tem um longo caminho a percorrer e, à sua maneira, está um pouco como a China: historicamente virada para dentro. Se o Papa, adversário da guerra do Iraque como terá sempre de o ser de todas, gostaria de ver as Nações Unidas terem um papel mais activo no mundo (a começar no conflito Israel-Palestina), convém entender, no entanto, que o equilíbrio militar será o último dos problemas que o apoquentam.
Por agora, a questão é, sobretudo, económica.
A globalização promete agudizar as diferenças entre ricos e pobres depois de, a reboque das novas tecnologias, ter ajudado a democratizar a comunicação e a fragilizar todas as ditaduras.
É algures entre Davos e Porto Alegre, entre ricos e pobres, que o Papa gostaria de ver aparecer pontes de contacto, novos mecanismos de distribuição de riqueza, de combate às desigualdades.
O capitalismo já provou ser preferível ao comunismo. É o mal menor. O passo seguinte vai no sentido de reconhecer que não bastam as regras do mercado para fazer do planeta um mundo seguro. A globalização, inevitável, tem de ser gerida à luz da solidariedade para não descambar na emigração, no terrorismo e na guerra.
Se o mundo fosse deixado nas mãos das grandes multinacionais, estas comportar-se-iam todas pela lógica da Clarks e estariam à disposição dos seus donos como a Parmalat esteve de Tanzi.
Não será esse, nunca, o caminho da Paz. Esta não pode ser estimulada num quadro de apoio bancário, à partida impagável, que faz crescer a impotência e a raiva porque colide com o orgulho dos Povos. As ajudas em tempos de mortandade, como no Irão, fazem parte de um outro registo.
O mundo precisa, pois, de se movimentar num quadro semelhante ao que serviu da base à construção europeia: os mais ricos pagam o desenvolvimento dos mais pobres. Não há outra via. Política à parte, foi disto que falou João Paulo II.
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