Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
16 de Janeiro de 2005 às 17:00
As eleições já mobilizam o pessoal político, os comentaristas e os candidatos a assessores mas não estão a conseguir, pelo menos nesta fase de pré-campanha, arrancar os cidadãos à indiferença e, sobretudo, ao desconforto face às duas grandes alternativas.
Por muito que PSD e PS se esforcem, o eleitorado tem uma maneira muito própria de resumir o que estará em jogo a 20 de Fevereiro: ganhe quem ganhar, a austeridade é certa, fruto da conjuntura económica mundial, é claro, mas também muito pela responsabilidade directa da qualidade de governação que, alternadamente, o PS e o PSD mostraram na última década, incapaz de impulsionar a Economia, domesticar as Finanças, requalificar a Justiça, estimular a Educação, reformar a Saúde e a Segurança Social, aproveitar de forma eficaz os fundos comunitários.
Na rua, qualquer popular pode fazer abrir a boca de espanto aos estados-maiores destes dois partidos com a divulgação de uma evidência que só a eles não chegou: Cavaco Silva tornou-se o último primeiro-ministro em quem os portugueses de alguma forma confiaram, e respeitaram. Dez anos, afinal, podem muito na reflexão e na sabedoria popular.
No quadro concreto, a rábula dos debates é elucidativa quanto às posições relativas de Santana Lopes e do PSD face a José Sócrates e ao PS.
Pela primeira vez, o poder não pesa a favor de quem o exerce mas de quem a ele quer regressar, neste jogo bipolar de Governo que parece esgotado ao nível da confiança dos portugueses.
O PSD padece de uma liderança pouco credível, e concorre minado pelo distanciamento crítico de alguns dos valores mais reconhecidos do partido, mas não é certo que Sócrates, ajudado por Vitorino, possa reciclar a esperança a partir dos mesmos homens que ainda há menos de três anos fizeram António Guterres desistir.
Santana tem de correr atrás dos debates porque, além de viver na ilusão de que domina no audiovisual, está colocado perante a necessidade imperiosa de jogar ao ataque. Ao contrário, Sócrates, face à vantagem garantida pela desgovernação social-democrata, só tem de se defender de qualquer imprevisto, gerir melhor os “ajustes” de discurso (estar às portas do Governo não é o mesmo que estar na oposição pura e dura, vide a reforma laboral e os benefícios fiscais…), e fazer avançar para os holofotes os pesos-pesados do partido e do seu previsível futuro Executivo (as entrevistas de Vitorino e Gama). Este estado de coisas abre uma janela de oportunidade para o Bloco de Esquerda e para o Partido Popular que pode estar a não ser ainda devidamente espelhada nas sondagens.
O Governo PSD/PP teve, apesar da dissolução do Parlamento com que o Presidente da República decidiu encerrar o ciclo errático de Santana Lopes, uma virtude que não passou despercebida ao País: mostrou que as maiorias não precisam de ser monocromáticas. É possível haver entendimentos estáveis entre partidos. Mais: havendo um bom primeiro-ministro, talvez seja melhor existir a necessidade de debater e concertar do que aplicar um programa muitas vezes fruto de uma só vontade ao serviço de um lobby mais poderoso.
Neste quadro, o Bloco não tem de fazer quase nada. Há muito que Francisco Louçã pegou em temas mediáticos e os agita com talento político reconhecido e demagogia q.b.. É dar tempo ao tempo – e ao definhamento do PCP.
No lado aposto, o PP, que conseguiu fazer passar uma imagem de responsabilidade no exercício do poder, só estará prejudicado pelo receio que alguns eleitores possam ter em que esse voto possa reconduzir Santana a S. Bento. Paulo Portas vai precisar de trabalhar este aspecto na campanha.
Estas eleições podem ter o efeito de atenuar o bipartidarismo da vida política portuguesa. Face à realidade conhecida, talvez não fosse mau que isso acontecesse.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)