Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
6
24 de Agosto de 2004 às 00:56
A Nigéria recusou a repatriar-lhe o corpo. Nessa altura, Glory já treinava em Valência. A cidade decidiu tomar conta das despesas do envio do corpo para a Nigéria. Agradecida, Glory naturalizou-se espanhola e corre pelo seu novo país, aquele que lhe estendeu a mão quando ela precisou.
É de Kennedy a frase: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país”. É uma frase meia certa. E totalmente certa se for assim, mas também ao contrário. Temos de merecer o nosso país. Mas o nosso país também tem de nos merecer.
A relação dos cidadãos com a pátria deve ser um negócio entre iguais. Por favor, leitor, entenda-me. A palavra “negócio” é uma bela palavra: quer dizer “falta de ócio”, trabalho. Eu trabalho pelo meu país se o meu país me der condições para trabalhar. Afinal, isso é que determina os nossos emigrantes a partir, para irem fazer algures o que não puderam fazer aqui. E digo mais: os melhores desses emigrantes são os que ficam a amar a nova pátria tanto como a que cá deixaram. Conheci muitos: na América, em França, na Namíbia... Fernão de Magalhães é um dos maiores portugueses da História, e foi ao serviço de outra pátria.
Anteontem, na noite da sua glória, a Francis Obikwelu foi-lhe posto o que parecia um dilema. Então, como é, você é nigeriano ou português? E, ele, fez as contas à sua vida recente, e respondeu: “Vou falar do meu país, Portugal. Eu sou português.” Ele lá sabe. No negócio que fizemos com ele, ele cumpriu: deu-nos o inimaginável. Se ele acha que a pátria tem cumprido com ele, óptimo. Quanto a mim, só posso dizer que foi aos berros que anunciei ao mundo a honra de ser compatriota de Francis.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)