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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Outubro de 2007 às 00:00
No passado dia 17 de Outubro foi celebrado o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Segundo dados do Banco Mundial, todos os anos, cerca de 18 milhões de pessoas (50 mil por dia) morrem por razões relacionadas com a pobreza, sendo a maioria mulheres e crianças; 11 milhões de crianças morrem antes de completarem 5 anos; 1 bilhão e 100 milhões de pessoas, cerca de um sexto da humanidade, vivem com menos de 1 dólar por dia; mais de 800 milhões de pessoas estão subnutridas. São números arrepiantes que fazem parar a respiração e sangrar o coração.
Todos os dias percorro, por razões profissionais, a Rua do Arsenal, entrincheirada entre a Praça do Município e o Cais Sodré. Na quinta-feira passada fui surpreendido com um cartaz, afixado no edifício da Câmara Municipal de Lisboa, com os seguintes dizeres: “Levanta-te Contra a Pobreza”. Fiquei atónito e parei para pensar, porque todos os dias, nestas ruas, se convive com essa chaga social e humana a que somos insensíveis. Quando vemos na rua a pobreza e a miséria humana até apressamos o passo, não vá esta incomodar quem trabalha e quem caminha de barriga cheia. É uma ironia da vida aquele cartaz naquela zona onde também mora o Tribunal da Relação de Lisboa. Levantemo-nos, na nossa rua, contra a pobreza e acabemos com esta violação dos Direitos Humanos, a que todos os dias assistimos em silêncio cúmplice. Só assim tem significado e substância a mensagem. Todos os dias devem servir para erradicar a pobreza.
Tenho o gosto de andar a pé pelas ruas de Lisboa. Nesta caminhada venho observando um aumento exponencial de pessoas a dormir na rua junto aos prédios, em condições miseráveis, que só se alimentam do que lhes chega pelas brigadas de voluntários. Na Av. da Liberdade é raro o prédio que não tenha um “inquilino” a dormir à porta, aconchegado pelos despojos dos cartões que sobram da azáfama da vida. Esta triste realidade está tão perto de nós que nem damos por ela crescer. Mas não é por fecharmos os olhos que ela não cresce. Ela cresce e cresce a um ritmo preocupante.
A perenidade da vida não se compadece com a pobreza nem com a exclusão social, antes exige equidade social, verdadeiras políticas de solidariedade (que não de caridade) e novas relações económicas que não penalizem os mais pobres. Se nos queremos Levantar contra a Pobreza é preciso uma nova e mais equilibrada repartição das riquezas no interior de cada sociedade; acabar com a corrupção que gera um mau funcionamento do sistema democrático; fomentar a igualdade de oportunidades; corrigir o sistema fiscal que é inadequado e injusto; em suma, incrementar o crescimento económico, que deverá ser acompanhado de políticas sociais que reponham a justiça social.
A pobreza prejudica o investimento e o desenvolvimento e é um lugar que pode ser fértil para o recrutamento de futuros terroristas e de criminosos. Os dirigentes mundiais que, agora, só se preocupam em investir em segurança, têm que inscrever, nas prioridades das políticas internacionais, o combate à fome e à pobreza, porque desta forma combate-se este flagelo e todas as causas que lhe estão associadas.
O património da humanidade só se salva se os mais ricos também pagarem a crise e se for atenuado cada vez mais o fosso entre ricos e pobres. Se for assim sinto-me convocado pelo cartaz, sendo certo que a consciência pesa, porque ao terminar esta crónica, que me ocupou poucos minutos, morreram no Mundo milhares de pessoas à fome e à pobreza.
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