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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Novembro de 2005 às 17:00
Entusiasmados com as sondagens, alguns apoiantes de Alegre sugerem já a desistência de Soares.
São sugestões aparentemente boas para todos. Para Soares, que evitaria um ajuste de contas imerecido com a história. Para Alegre, que sucederia ao velho senhor e lhe recolheria os apoios e ajustaria contas com o partido. E para a direita, por ver o seu mais assanhado opositor estoirar a meio da história. Mas não nos parece que Soares vá dar esse gozo a ninguém. Soares levantou-se contra a prevista caminhada de Cavaco para Belém para evitar que a direita tivesse a sua primeira e histórica vitória presidencial. Nunca o negou e a verdade é que, como os Soaristas, e a esquerda em geral, vêem a figura de Cavaco, essa seria razão mais do que suficiente para o ter feito. Ora, em relação a Cavaco e aos medos que inspira, nada mudou.
Os candidatos de asas brancas e pureza angelical são a mais banal das criações eleitorais. Não há disso senão na cabeça de alguns tontinhos e nas palavras dos mais delirantes vendedores da banha da cobra. O resto é a realidade nua e crua e a campanha se encarregará de arrancar as penas uma a uma a todas essas criações celestiais. As pensões de reforma de Cavaco aí estão para começar a depena.
Soares apenas avaliou mal o tempo e a força da sua intervenção. Os tempos são outros e já ninguém acredita no Soares salvador da pátria que ora se opõe à direita, ora se opõe aos comunistas, na sua versão de comedores de criancinhas. As suas memórias pesam-lhe muito e a sua linguagem tornou-se arcaica sem que, sequer, tivesse dado por isso.
Já não tem utilidade como ‘combatente da liberdade’, os amigos rareiam e a legião de inimigos engrossa. A sua ligação ao PS é suicidária e já não tem como ver-se livre dela. Esgotou-se. Não pela idade, mas porque o tempo político é vertiginoso e as ‘verdades’ são hoje, menos falsificáveis, menos definitivas e de vida mais curta.
Soares é, hoje, tão provinciano no seu republicanismo como Cavaco e o ressuscitado Eanes o são enquanto ‘democratas’. Estão todos encalhados no tempo há muitos anos.
Mas o ego de Soares faz dele um super-homem. Foi assim que sempre gostou de se ver e quer continuar a ver-se. E subavalia todos os riscos.
Recusa a evidência. Não se pode ser candidato de esquerda e ser apoiado pelo partido de governo e seu líder que, bem ou mal, estão a fazer na perfeição tudo quanto a direita desejaria ter feito há muito tempo, sem que lhe sobrasse coragem para tanto.
Sócrates, nas poucas semanas que decorreram desde o anúncio da candidatura de Soares, fez convergir sobre si todos os ódios destinados a Cavaco e à direita e inviabilizou qualquer hipótese de ele ser eleito. E é ele (e não Soares) o verdadeiro responsável pelos resultados das sondagens.
Em Janeiro, os índices de popularidade de Sócrates, do Governo e do PS estarão tão baixos que ninguém irá votar num candidato apoiado por eles.
Soares perdeu-se por um apoio que exigiu, por não ter entendido Sócrates, nem as mudanças no PS, nem a inexorável conjuntura que exigiu do PS que fosse o coveiro das suas ilusões.
É a verdadeira quadratura do círculo.
PS: Alegre, abandonado pela família à porta de casa, já dá graças a Deus.
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