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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Outubro de 2004 às 00:00
Eu desconfiava que um dia, não muito distante, o “destino” proporcionar-me-ia o espectáculo das ratazanas em fuga quando o barco começasse a afundar-se. Pois bem, assim aconteceu.
Uma delas, bem gorda por sinal, tem-se desfeito em editoriais atrás de editoriais para se livrar das vestes anteriores e aparecer em público com nova roupagem. Já abandonou o navio com um discurso piedoso de quem se sente traído pelo ministro que antes apoiou incondicionalmente.
Mas não há tábua de salvação que lhe valha. A memória das ocorrências está ainda muito viva. Estamos ainda a ouvir as suas declarações tonitroantes de apoio a Morais Sarmento e à sua política para a Comunicação Social, a televisão em particular, recordamo-nos todos da campanha que fez no jornal de que é Director contra aqueles que se apresentavam como vozes discordantes do poder político vigente, temos bem presente o seu protagonismo numa comissão criada para desenhar o serviço público de televisão, ele, que é um ignorante primário em matéria de televisão e, obviamente, não nos esquecemos das benesses que recebeu e das promoções que conseguiu, em especial, a promoção a comentador político da RTP sem talento, nem arte, nem oratória para a função.
Como nada disto é negligenciável só com um sorriso irónico se pode receber o seu espavento ao abandonar o navio. Um ou outro exemplo elucidativo. “Os anões políticos domésticos ... apenas concebem o governo da televisão, pela televisão, para a televisão”; e “A obsessão que os políticos (leia-se Morais Sarmento) mostram pelo controlo da informação é perigosa”; “qual é o verdadeiro ministro Morais Sarmento?”
Assim vagueia José Manuel Fernandes, feito tonto, no mar encapelado das “novas” orientações governamentais. Ele não percebeu, ou finge que não percebe, que há só um ministro Morais Sarmento. Num tempo jogou de uma maneira, noutro tempo, sem nenhuma contradição, jogou de outra. Com inteligência, habilidade e perspicácia pouco vistas na política portuguesa.
O que sempre apaixonou o ministro da Presidência foi o controlo dos órgãos de comunicação social do Estado e um “gentlemen agreement” com os principais proprietários da comunicação social privada para o estabelecimento de uma cadeia de comunicação que preserve a imagem do governo e dele forneça um retrato de eficácia.
É em nome deste projecto que Morais Sarmento deixou cair a privatização do Canal Dois. TVI e SIC garantiam os objectivos do governo e em troca recebiam uma redução dos custos de emissão a pagar à PT, a diminuição gradual de publicidade na RTP até à sua anulação e o afastamento de mais “players” na televisão hertziana.
Quanto à televisão do Estado, Morais Sarmento, com uma administração em plena sintonia com os seus propósitos, disponibilizou o dinheiro para a sua restruturação faltando concretizar na prática um modelo de televisão pública mais de acordo com os propósitos do governo, nas áreas da informação e da programação.
Os grupos da TVI, SIC, PT e a empresa pública da rádio e da televisão detêm a grande fatia dos jornais, rádios e televisões do País e são veículos onde o governo passa e quer passar melhor a sua informação.
Os produtos comunicacionais, nas suas múltiplas formas, que interessam ao governo são gizadas no seio de um grupo que domina toda a informação dos ministérios e que estabelece as pontes com todos os meios. Na cúpula deste edifício está Morais Sarmento.
O que não se percebe, eu não percebo, quando está quase tudo concretizado e em funcionamento, são as declarações precipitadas de Morais Sarmento que abriu um pouco do jogo e pôs em risco dois anos de trabalho profícuo.
O Fernandes foi peão neste jogo, usado até à gargalhada, apanhou as suas migalhas e agora vergasta o ministro depois de o ter agraciado. É o comportamento típico de uma ratazana dos esgotos da comunicação.
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