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Correio da Manhã

Opinião
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3 de Julho de 2010 às 00:30

Portugal saiu do Mundial por culpa própria. Queiroz, que chegou a reunir aplausos quando se consumou a passagem aos oitavos-de-final, acabou vítima de si mesmo. A sua falta de ambição revelou-se fatal. A equipa nacional limitou--se sempre a tentar não perder, com a postura típica dos fracos que vivem do aproveitamento oportunístico de falhanços alheios. Ser batido pela Espanha, que é uma grande selecção, não deslustra. Perder, porque não se trabalha para ganhar, quando na mão se têm as armas adequadas para vencer, é que entristece e choca. O actual seleccionador pode ser um conceituado estudioso do futebol, mas não se mostrou um bom estratega e, muito menos, um general condutor de homens. Os desabafos, primeiro de Nani, e, depois, de Deco e Cristiano Ronaldo, porventura criticáveis, demonstram isso mesmo.

A incapacidade de Carlos Queiroz para ler a realidade, no fundo, não é muito diferente da que o primeiro-ministro revela sobre Portugal. O episódio relacionado com a venda da Vivo à Telefónica não deixa dúvidas sobre a forma como José Sócrates encara a actividade empresarial : independência e liberdade dos mercados são valores de consistência duvidosa. Dentro de dias, a Europa obrigará o primeiro-ministro a meter a viola no saco, com a proibição das golden shares. Não será altura de alguém parar para pensar que há opções estratégicas que têm consequências? Se há empresas que o Estado considera fundamentais, por que as privatizou ou abdicou do controlo? A tentação dominadora do actual Governo sobre a PT já era sobejamente conhecida. O caso do negócio com a TVI deixara tudo às claras. Agora, foi mais uma prova da atitude submissa que o Executivo entende que a PT deve ter. Sem mais nem menos. Desta vez, como o impacto lhes atingia os bolsos, os accionistas reagiram. Nunca se viu Ricardo Salgado, o principal responsável do BES, ser tão claro na divergência com o Governo. Sinal de que os tempos mudaram mesmo e novos ares sopram na política...

A austeridade, esta semana, também fez a sua entrada formal. A carga fiscal aumenta em toda a linha. Não há bem cujo preço não suba. Carregado de défices e crivado de dívidas, Portugal arrasta-se, sem estratégia nem táctica, à espera de que alguma coisa aconteça.

SOLTAS

SEMEDO MARCA PONTOS

A AR aprovou uma proposta do Bloco de Esquerda para que os doentes submetidos a intervenções cirúrgicas recebam gratuitamente os medicamentos de que necessitam durante os dias seguintes à alta hospitalar. Excelente a acção de João Semedo na defesa da posição do BE, que só teve votos contra do PS.

HORA DE PENSAR NA ESTRATÉGIA

Madaíl já viu, na sua presidência, Portugal ter bons comportamentos em dois campeonatos da Europa e um Mundial. A África do Sul, no entanto, acabou por constituir uma desilusão. Impõe-se que decida se, no novo ciclo, quer uma Selecção ambiciosa ou uma equipa sem chama.

'CAPÃO PECADO': UMA REFERÊNCIA

Só agora consegui ler o livro do brasileiro Ferréz, na sua última edição. Impressiona a narrativa, dura e cruel, de um mundo periférico de S. Paulo, feito de miséria e violência. Capão é um lugar de quotidiano agreste e terrível, que alberga milhares de almas que lutam para sobreviver. Indispensável.

NOTAS (Escala de 0 a 20)

15 - FÁBIO COENTRÃO

Adaptado por Jorge Jesus a defesa no Benfica, acabou por brilhar na Selecção. Foi a grande revelação de uma equipa que, podendo ir longe, se ficou por uma prestação modesta. 

12- RICARDO SALGADO

Surpreendeu por, publicamente, expor a sua divergência com o Governo sobre a venda da Vivo. Sempre tão cauteloso, preferiu a frontalidade. Novos tempos se anunciam.

8 - CARLOS QUEIROZ

Baixa drasticamente a nota. Sem estratégia nem táctica, a não ser a ideia de não perder, é o principal responsável pela falta de ambição que matou as aspirações da Selecção.

8 - JOSÉ SÓCRATES

Vetou a venda da Vivo, defendida pelos accionistas da PT. Desconsiderou o mercado, com a mesma cara com que tenta convencer investidores a trazerem capitais. Para ele, não há contradições.

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