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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Fevereiro de 2011 às 00:30

A esquerda democrática europeia, atordoada por vinte anos de voluntarismo liberal após a falência do bloco soviético, não encontrou ainda as marcas identitárias que lhe permitam honrar os pergaminhos do modelo social construído desde a II Guerra Mundial e responder à vingança dos mercados especulativos que os Estados decidiram salvar em 2008.

A esquerda social-democrata tem no ativo as sociedades mais igualitárias de sempre, com acesso generalizado à saúde e educação públicas, ao direito à protecção na infância, no desemprego e na velhice e a luxos desconhecidos noutros continentes, como as férias pagas. A generalidade dos portugueses não tem noção de que aquelas banais conquistas não existem nos Estados Unidos ou na China. A epopeia do crédito fácil e da especulação financeira e imobiliária que conduziu à crise global dos últimos anos foi acompanhada do elogio da desigualdade, sob o manto de prémio ao mérito de gestores capazes de rápida multiplicação de lucros, e pela exaltação da xenofobia social retratada em clássicos de época como ‘A Fogueira das Vaidades’ ou ‘Psicopata Americano’. À nossa dimensão tivemos as guerras de comadres do BCP, os casos de polícia do BPN e BPP, os prémios do dr. Mexia e o injustamente esquecido romance de Deus Pinheiro sobre a cultura social do cavaquismo, ‘Eu, Abaixo Assinado’. A tímida reeleição presidencial veio moderar os ânimos da direita que marchava para o poder empurrada pela crise e à boleia do FMI.

Sócrates, que repetiu o erro de fazer opções presidenciais dignas mas a olhar para o passado, voltou a ter espaço para liderar a iniciativa política. Tem agora até Abril um precioso trimestre para provar novamente uma eficácia que desminta as previsões económicas, como sucedeu em 2010, e cale os comentadores da decadência nacional. Mas tem de definir uma agenda progressista e igualitária que permita tornar claro que a opção será entre esquerda reformista e direita liberal, entre solidariedade à europeia ou o privilégio do direito à escolha pelos mais fortes.

Nas presidenciais, os jovens, a classe média urbana e muitos socialistas recusaram optar entre visões de passado. A justiça social, a denúncia do egoísmo da direita europeia, a prioridade às questões ambientais e a intransigência com o espírito manhoso de bloco central são decisivos para que não sejamos o único País com quase 20% dos eleitores perdidos entre as versões metalúrgica e evangélico-chic de votos de esquerda politicamente inúteis.

(Opinião segundo as regrasdo Acordo Ortográfico)

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