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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Agosto de 2005 às 17:00
E Angela Merkel, a dirigente conservadora alemã, estava em boa posição para destronar Gerhard Schroder, chanceler e dirigente dos socialistas. As eleições alemãs são em Setembro e a coligação conservadora CDU/CSU, que há um mês tinha 49 por cento de intenções de votos em sondagens, caiu para 42. O que sucedeu para esse desastre anunciado? Edmund Stoiber, companheiro de Angela Merkel na direcção da CDU/CSU, decidiu passar a mão pelo pêlo do seu eleitorado. Mas ele, que é bávaro, só se interessou pelo seu exclusivo eleitorado, o da Baviera. Aos outros alemães, ofendeu-os.
Stoiber disse: “Não aceito que o Leste decida mais uma vez quem será o novo chanceler. Os frustrados não podem decidir pela Alemanha.” Naturalmente, as pessoas das seis ‘lander’ (regiões) do Leste – que anteriormente constituíam a RDA, a Alemanha comunista – não apreciaram essas palavras. Com elas, Stoiber acabou por se mostrar aquilo que ele diz não apreciar, um frustrado: afinal, há dois anos, quando era ele a liderar as eleições contra Schroder, foi por causa dos votos do Leste que ele perdeu.
A esquerda aproveitou-se da falta de chá de Stoiber, acusou-o de tentar erguer “um novo Muro a dividir os alemães.” A senhora Merkel também se sentiu incomodada mas não pôde dizê-lo muito claramente, não fosse perder, ela que é protestante e divorciada, os votos dos bávaros, o bastião católico na Alemanha. E foi assim que Edmund Stoiber decidiu ir mais longe. Num comício, lamentou-se por “infelizmente, a população alemã não ser por todo o lado tão inteligente como na Baviera.” Foi a partir desta provocação que as sondagens começaram a não sorrir a Angela Merkel.
Trago para aqui estes episódios alemães para vos dizer quanto me irritam homens de partido como Edmund Stoiber. Adepto que sou das linguagens agressivas (um abanão é quase sempre mais honesto do que falinhas mansas), não me incomodaria em Stoiber a provocação – acho mais salutar o estilo de Alberto João Jardim do que a hipocrisia instalada na grande maioria do nosso discurso político (e não só). Mas o que Stoiber não pode fazer, ele que pertence a uma equipa com uma estratégia (ganhar as eleições alemãs), é prejudicar o seu lado para solidificar a sua força pessoal na sua capelinha bávara.
Não tenho nada contra quem age sobretudo por si. Geralmente tenho tudo a favor: admiro a presunção dos individualistas, gosto de quem vai a contracorrente, prefiro qualquer corrida simples às de estafeta. Não tenho nada contra um egoísta, desde que aquilo que ele ganha só para si saia daquilo que só ele fez. Agora, a quem encaixa o seu destino num trabalho colectivo, a esse, é exigir o pagamento de imposto: “Um por todos”, como diziam os espadachins.
E isto, evidentemente, vai muito para lá da política.
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