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Correio da Manhã

Opinião
24 de Setembro de 2004 às 00:00
Graças à ameaça de ajustamento das taxas moderadoras e à peregrinação de Sampaio, nos últimos dias falou-se muito de saúde. Da sua qualidade. De modos de gestão. Do interesses dos grandes grupos. De pobres. De ricos. Dos direitos dos doentes. Dos riscos e do futuro do Sistema Nacional de Saúde. De quase tudo.
Mas no essencial ninguém quer tocar. Do que é o grande negócio da saúde, sobre o qual se revelam cada vez mais explicitamente a gula e o assalto de bancos, seguradoras e grandes grupos privados.
A saúde está a tornar-se cada vez mais um negócio em que só os hospitais públicos perdem dinheiro e todos os outros à sua volta, sem excepção, enriquecem à grande e à francesa.
Mas se os hospitais e institutos públicos não ganham dinheiro não é, principalmente, por serem mal geridos.
Os hospitais públicos, ao contrário dos privados, não podem dar lucro porque não é para isso que existem. Porque nunca foi essa a sua vocação nem a sua filosofia.
A peregrina ideia de que todos os sectores do Estado têm de ser rentáveis, se excluirmos o oportunismo dos que, por trás dos governantes, mexem os cordelinhos, e os usam como marionetas, é só o reflexo de uma soberba incapacidade e demissão.
Mas a missão dos hospitais públicos torna-se cada vez mais difícil, porque desde cedo se permitiu que, à sua volta, crescessem e prosperassem vários grupos de interesses que, tal como qualquer outra colónia de parasitas, engorda à custa do hospedeiro, debilitando-o. E, pior ainda, tudo foi claramente preparado e consentido, por quem, nos centros de decisão e nos próprios hospitais, podia intervir ou fechar os olhos.
Alguns dos hospitais públicos são hoje locais tão degradados que os doentes ficam ainda pior só por passarem a porta de entrada. São locais a evitar por quem o possa fazer e a que só os mais desfavorecidos se encomendam.
Onde não existem os mais actualizados meios de diagnóstico.
Onde, salvo raríssimas excepções,(de gente realmente extraordinária) a qualidade técnica e humana do pessoal deixa muito a desejar.
Onde a duplicidade de prestação de serviços dentro e fora dos hospitais por alguns agentes que todos conhecem , sempre pagos em última instância pelo Estado, numa promiscuidade consentida e até promovida, faz com que alguns deles quase só esperem que o tempo passe rapidamente lá dentro para vir tratar da vidinha cá fora.
Onde inclusive se chegouà bandalheira de os médicos alugarem blocos operatórios dos hospitais onde (não) “trabalham” para tratar dos seus servicinhos privados.
A verdade é que se o SNS ainda não morreu é porque os seus inimigos mais próximos não querem matá-lo, porque morreriam com ele.
Querem-no moribundo e incapaz de reagir por quanto mais tempo melhor. Por isso a sua agonia será longa e penosa. Como a dos seus utentes.
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