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Correio da Manhã

Opinião
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12 de Março de 2011 às 00:30

A Constituição reza que o PR toma posse perante a Assembleia da República consoante uma fórmula de compromisso ática e breve. O resto é invenção do cerimonial: cortejo, convidados, discursos, cumprimentos. A Comunicação Social fornece a câmara de eco.

Ora, deu-me a impressão de que Cavaco Silva encarou o dia da tomada de posse como alguém que acorda no dia de aniversário sem saber muito bem como o comemorar. Antes de iniciar o novo mandato mas como se já o tivesse assumido, deu uma volta pelo mar, cuja "exploração económica" ofereceu à impetuosa iniciativa privada nas profundezas do Oceano. E assemblou à beira-rio um grupo da mocidade escolhida, a quem se dirigiu em termos elogiosos e empolgados.

À tarde, na AR, o tom foi diferente. O longo discurso, na parte em que não foi analítico, foi desnecessariamente doutrinário, e dividiu os deputados em esquerda e direita, sendo apenas aplaudido pelos grupos parlamentares do CDS e do PSD, ou seja, pela minoria. Desse ponto de vista, o PR juntou toda a esquerda parlamentar, PS, BE e PCP, o que não tem sido fácil tendo em conta a política governamental.

A parte analítica do discurso é um bom sumário de uma lição de economia, com o apoio de indicadores sobre a última década, que leva um lustre com este presidente, três anos da coligação do aplauso conjunto e sete alternados do PS da terceira via. E, sobretudo, é a primeira década de existência da zona monetária continental, que se apresenta assim pouco virtuosa, e sobre a qual Cavaco Silva nada disse nem como economista, nem como responsável político europeu. Uma dimensão demasiado ausente das suas intervenções.

É verdade que o facto de a condução da integração europeia caber ao Governo e à Assembleia remete o PR para a periferia das tomadas de decisão sobre matérias relacionadas com a UE. Mas, num momento de desorientação internacional, mal se compreende que o Presidente da República Portuguesa seja omisso nesta questão maior. O pequeno parágrafo sobre o que devemos esperar da UE, não indo além da "estabilidade e sustentabilidade do euro" e de uma "estratégia comum e solidária que promova o crescimento, o emprego e a coesão", é manifestamente muito escasso e muito aquém do que está na ordem do dia em termos europeus.

Portugal está hoje submetido a uma tenaz orçamental e financeira e vive uma situação de emergência económica e social, como disse o PR. Mas é política a resposta.

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