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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Agosto de 2003 às 00:00
Os incêndios florestais que estão a devastar o País já "devoraram" uma área semelhante à do Luxemburgo!
Múltiplos debates e artigos de opinião têm dissecado abundantemente este assunto, pelo que não haverá um único português que não seja capaz de elencar variadas e consistentes explicações para o que está a acontecer.
Todos sabemos que as condições climatéricas excepcionais constituíram um cenário propício ao desencadear desta tragédia.
Todos sabemos que a progressiva desertificação do Interior, o abandono das actividades agrícolas e o desordenamento florestal, conjugam-se por forma a tornar uma grande parte do nosso território particularmente permeável a este tipo de desastres.
Todos constatamos que os recursos existentes para o combate aos fogos são quantitativa e qualitativamente deficientes, nomeadamente os meios aéreos disponíveis e o facto, agora consensual, de que não devem ser comandados por interesses privados com fins lucrativos.
Todos duvidamos que a enorme abnegação e profissionalismo das corporações de bombeiros que combatem os sinistros, seja directamente proporcional à excelência da organização global e integrada, que a eficiência no ataque a este tipo de situações exige.
A maioria dos portugueses de boa fé sabe que é profundamente injusto procurar, nesta fase, culpados conjunturais. A culpa é de todos. Desde há muito que todos nós convivemos com estes factores de risco sem nada fazer.
Contudo, apesar de todas estas evidências, parece-me que se está a passar, com uma inexplicável displicência, por cima de alguns aspectos demasiado relevantes.
É verdade que condições climatéricas também excepcionais têm provocado incêndios em todo o mundo, principalmente na Europa do Sul. Todavia, as áreas ardidas andam, em termos de percentagem indexada às áreas globais dos diferentes países, por um terço das que já foram "devoradas" em Portugal! Igualmente, principalmente após a Polícia Judiciária se ter virado mais para a observação de toda esta realidade, já foram detidos cerca de 60 suspeitos de envolvimento criminoso nestes incêndios! Em escassos cinco dias!!!
Estes factos objectivos só reforçam constatações que diariamente nos entram pelos olhos dentro. Uma, duas grandes frentes de fogo, seriam explicáveis, centenas, em simultâneo, espalhadas por 15 dos 18 distritos do País, é algo de completamente incompreensível. Um incêndio com uma ou duas frentes é aceitável, mas o mesmo incêndio resultar da confluência de meia dúzia de frentes separadas por quilómetros de distância, é uma realidade estatisticamente impossível de explicar. Para já não falar de dezenas de testemunhos avulso, de populares e de bombeiros, que, através de relatos variados, coincidem numa convicção: a natureza não tinha génio para propiciar "espectáculo" tão feérico!
Não sou um adepto fervoroso da "teoria da conspiração", mas também detesto, até por deformação profissional, não procurar até ao limite as causas de tudo o que pareça mal contado.
As mãos assassinas pertencem a pessoas dementes e irresponsáveis? Talvez, algumas. As mesmas mãos foram usadas por desequilibrados com sede de vingança ou por quem foi pago para servir interesses económicos pontuais? É provável que tal também tenha acontecido.
No entanto, face a tantas constatações, parece-me difícil de afastar a possibilidade de ser verosímil aceitar que uma parte substancial desta desgraça não possa ter um denominador comum. Qual? Não sei. Mas vale a pena procurá-lo, ou não esteja a nossa história comunitária a começar a desvendar que redes criminosas com aspectos tenebrosos podem actuar, impunemente, durante dezenas de anos.
Não acredito em bruxas, "pero que las hay las hay".
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