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Correio da Manhã

Opinião
8
7 de Junho de 2009 às 00:30

Quando uma pessoa começa a achar que não há mais enigmas à face da Terra, eis que um mastodôntico Airbus fica cinco dias sumido do mapa – como se tivesse caído na ilha de ‘Lost’. Isso numa das rotas aéreas mais movimentadas do Mundo – e que eu utilizo com razoável regularidade (brrrrr…). Houve quem invocasse uma espécie de buraco negro ou um abismo oceânico tipo Triângulo das Bermudas.

Afinal, 36 horas de sumiço parecem a maior das charadas numa era que devassa qualquer fait-divers desde o primeiro segundo. Não estou a insinuar nenhuma maquinação com terrestres ou extraterrestres – apenas assinalo a coincidência com a série que a TV2 acabou de estrear: ‘Fringe’ (em inglês, franja ou borda), de J.J. Abrahams, o mesmo criador de… ‘Lost’. No primeiro episódio, um avião faz um pouso de emergência no aeroporto de Boston – com a elegância de um pelicano, mas no horário, e intacto.

Dentro dele, porém, todos os passageiros estão mortos (e putrefactos). Um mistério para a agente do FBI Olivia Dunham (Anna Torv, actriz revelação) deslindar, com uma mãozinha de um cientista que esteve 20 anos confinado num hospício. Adivinharam: está servida mais uma luxuriante salada de ciência de ponta e um sobrenatural que não tem ponta por onde se lhe pegue. A genealogia remonta, claro, a ‘Lost’ (o pai das duas crianças é o mesmo), mas também a ‘Ficheiros Secretos’. Um ingrediente essencial desta linhagem televisiva são as teorias conspiratórias – sempre muito populares, desde Adão e Eva.

Quando não atinamos as causas, as ‘forças ocultas’ são uma chave-mestra. Estranho: num Mundo tão saturado de informação tecnológica, as séries apelam cada vez mais para a singularidade de uma inteligência humana superior – seja a perspicácia clarividente do dr. House, seja a intuição oracular de Patrick Jane (‘The Mentalist’, também na TV2), seja o genial doido varrido de ‘Fringe’. É uma espécie de novo heroísmo: não o da acção (são todos contemplativos), nem o da superioridade moral (são cépticos ou cínicos), mas o do cérebro sobredotado, capaz de se embrenhar onde o homem comum não ousa pôr os pezinhos. Resta saber se ‘Fringe’ será tão convincente a explicar como a criar enigmas – o fatídico calcanhar de Aquiles tanto de ‘Lost’ como de ‘Ficheiros Secretos’. Um testemunho pessoal? Num recente voo Rio de Janeiro-Lisboa houve uma turbulência espasmódica. Observando a minha lividez, a hospedeira de bordo perguntou-me se eu estava a sentir falta de ar. Resposta: "Não, estou a sentir falta de terra."

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