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Correio da Manhã

Opinião
1 de Maio de 2005 às 00:00
Portugal deve ser o único país do Mundo onde bastam duas banais condições para se passar a vida na televisão a falar de futebol: ser conhecido e fanático por um clube grande.
Há de tudo um pouco: cineastas, apresentadores, políticos, cirurgiões, empresários, advogados, etc. A preocupação é esta: com excepção da Sport Tv, nenhuma estação de televisão mostrou até agora interesse em convidar pessoas da bola para falar de bola, naquilo a que desavergonhadamente se insiste em continuar a chamar debate. O que importa, em Portugal, é levar puros fanáticos para a arena, dar espectáculo televisivo (triste, na maior parte dos casos) e, assim, tentar captar a atenção do maior número possível dos outros fanáticos lá em casa. Paga-se uma boa avença, portanto, a quem estiver disposto a discutir com o ‘companheiro’ do lado, a ofender uns árbitros e a tentar fazer umas piadas (quase sempre de mau gosto) com os adeptos do clube rival.
‘Os Donos da Bola’, na SIC, como toda a gente se recorda, inaugurou este triste espectáculo e esteve muito perto de fazer escola. Umas ofensas gratuitas em estúdio, uns ameaços de pancadaria e depois lá apareciam os responsáveis do programa a dizer que o objectivo era sempre o mesmo: denunciar a podridão instalada e moralizar o futebol português. E conseguiam dizer isto sem se rir, imagine-se…
Alguns anos depois – e também já depois de terem ficado pelo caminho outros ‘debates’ como o sonolento ‘Jogo Falado’ (RTP) ou o razoável ‘A Bola é Nossa’ (TVI) – sobram hoje o pobrezinho ‘O Dia Seguinte’ (SIC Notícias) e o paupérrimo ‘Trio de Ataque’ (RTPN). Por alguma razão a oferta não vai agora além dos canais por cabo: o conceito foi rejeitado pelo próprio futebol, nunca serviu para nada (enfim, poderá ter ajudado à construção de um primeiro-ministro…) e até os fanáticos se foram cansando de tanta conversa da treta. Resultado: audiências baixas, final de peixeirada.
O pior é que, para os telespectadores que insistem em continuar a espreitar este tipo de programas, os “painéis” continuam (salvo uma ou outra honrosa excepção) a revelar muita ignorância, especialmente quando os senhores se atrevem a mergulhar nas análises técnicas e até (valha-nos Deus!) nas interpretações tácticas. Nesses momentos só imagino o que, ao ouvir tanto disparate, pensarão desta mediocridade toda a maior parte dos futebolistas e até os dirigentes que ainda conseguem merecer alguma respeitabilidade. E depois queixem-se que, mesmo sem ser convidado, um presidente volte a entrar pelo estúdio adentro…
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