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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Janeiro de 2008 às 09:00
O Rio de Janeiro continua lindo”... Hoje como ontem o Rio é uma cidade de mil encantos. Perguntem ao rei português que há 200 anos abandonou o País, com toda a sua corte, e nunca mais quis voltar à capital do Império. Eu pecador me confesso, sempre que posso venho respirar ao Rio de Janeiro. Trago a família, entro noutras rotinas e aproveito sempre o Sol quente que nos aquece o corpo e a alma. Carrega-se baterias para suportar o início de um ano invernoso na Europa e consagra-se a alegria de ver e conviver com descendentes meus que nos séculos XVI e XVII se espalharam pelo Brasil, África e Índia. Para mim é sempre um retorno aos trópicos e Angola, onde nasci, está do outro lado do mar e vê-se daqui.
Nestas paragens há evidentemente coisas que angustiam e inquietam. A mais determinante é a violência. A luta que se trava há décadas entre o morro e a cidade, entre as favelas e o centrão do Rio. Mas, com franqueza, esta violência encontro-a sempre nos jornais e felizmente nunca fui protagonista ou espectador de nenhum episódio dessa natureza. Um exemplo só, a passagem de ano de 2007 para 2008 vivi-a na praia de Copacabana. Um imponente fogo-de-artifício e milhões de pessoas vestidas de branco, com flores nas mãos, ocupando todos os espaços da areia da praia, rezando uma oração a Iemanjá e oferecendo flores a esta deusa das águas que imigrou com os escravos de Angola e hoje faz parte da idiossincrasia e do multiculturalismo que povoa a cabeça destas gentes. Foi uma festa de paz, embora num sítio ou noutro com algum álcool a mais. “Sei que estás em festa, pá...” cantava o Chico em 1975 e um amigo meu de Lisboa repetiu-me esses versos na noite de 31 de Dezembro para me desejar bom ano.
De facto, o meu ano novo começou numa visita que é sempre uma festa, uma satisfação interior, uma visita que sempre faço às livrarias do Rio. É muito interessante verificar o número de livrarias de qualidade que o Rio (ou São Paulo) tem e que se transformaram em espaços de comunhão. É obrigatório passar um dia ou uma tarde, no mínimo, dentro dessas ‘catedrais’ com milhares de obras traduzidas em português. As horas passam e ninguém dá por isso. Folhear calmamente os livros, comprar aqueles que diminuem o peso da nossa ignorância, ouvir música, beber ou comer qualquer coisa e de repente... é meia-noite. As livrarias fecham à meia-noite, estão abertas aos sábados e aos domingos como as igrejas e, curiosamente, têm sempre “fiéis”. Como dizem os brasileiros, “é gostoso de mais”. Nós e os livros. O Rio de Janeiro continua lindo. Há ‘sucos’, nós dizemos sumos (nunca mais há acordo ortográfico), em todas as esquinas, bolinho de bacalhau com azeite português, sempre em lata com marca de origem, samba em qualquer ‘quadra’, a voz de Betânia a rasgar o éter, a alegria eterna de Vinicius de Moraes, esse folião e vagabundo das noites que trocou a carreira diplomática para viver a vida longe dos chatos e dos burocratas... “O branco mais negro do Brasil”, um violão por perto, uma caneta entre os dedos para escrever a qualquer instante um poema apaixonado, com emoção, a uma garota de Ipanema...
Saravá Vinicius, pela alegria homérica que difundias e pela homenagem às mulheres do Mundo, obrigado Vinicius pelo gosto de viver que espalhaste pelo Brasil. Saravá, Adelaide, por partilhares a alegria do poeta que se escoa por todas as ruas. A tua bênção, Vinicius...
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