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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Maio de 2011 às 00:30

A Alemanha da Senhora Merkel deu o sinal para as tomadas de decisão unilaterais na política europeia. Ansiosa na prevenção da saúde financeira de Berlim, espatifou qualquer hipótese de apoio eficaz à Grécia em tempo oportuno, que hoje se encaminha para a declaração de insolvência, senão para o abandono do euro. As taxas de juro que o Fundo Europeu colocou à disposição de Atenas fazem parte do problema um ano depois. Como se escreveu no ‘New York Times’ no dia 11, "as autoridades europeias adoptaram o ponto de vista dos credores". A Grécia que se dane, e o pagamento da dívida soberana nem sequer fica assegurado. É impossível.

Mesmo em relação a Portugal, como tenho escrito neste CM, a UE porta-se mais imperialista do que a tecnocracia ideológica do FMI, inclusive no montante das taxas de juro a aplicar aos empréstimos. Esteves Pereira resumiu na quarta-feira: "Portugal será obrigado a pagar pelos 52 mil milhões de euros uma taxa muito próxima daquilo que o mercado impunha há um ano." E de novo Mark Weisbrot no ‘NYT’ sobre o facto de Portugal ficar sujeito a dois anos de recessão: "Nenhum governo deveria aceitar este tipo de castigo." Com efeito, a recessão em Portugal tornou-se técnica.

A UE começa a exigir muito mais a países como Portugal do que dá em troca. O "Memorando de entendimento" extravasa em muito o mandato conferido à ‘troika’ para o saneamento das finanças públicas, e há muitas medidas, como a lista de privatizações, elencadas a preceito interno e externo. Abuso e descortesia marcaram também o conteúdo da conferência de imprensa dada pelos técnicos da Comissão. O próximo governo terá de se fazer entender na matéria.

Em paralelo com a crise da zona euro, assiste-se ainda às medidas unilaterais da reintrodução das fronteiras no ‘Espaço Schengen’ em Estados--membros como a Itália, a França e a Dinamarca, causando embaraço à livre circulação de pessoas. Ora a moeda continental promove o aumento acentuado das migrações, como se pode apreciar pela promoção da precariedade do emprego e da segurança social nos países da periferia. Não bate pois a bota com a perdigota.

A Europa Ocidental para a qual Portugal pediu a adesão em 1977, e entrou em 1986, já não existe. A União Europeia saída da reunificação alemã e da União Económica e Monetária tarda a encontrar um rumo coeso. Como se tivesse perdido o seu centro de gravidade. Agora que a UE é mais precisa do que nunca.

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