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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

A utopia romântica

E em caso de segunda volta, seria gastronomicamente hilariante saber que bicharada iriam engolir desta vez comunistas e bloquistas, sabendo-se que na já antiga disputa Soares/Freitas a ementa proposta pelo PCP foi sapos vivos para derrotar o actual ministro dos Negócios Estrangeiros (...)

Francisco Moita Flores 25 de Julho de 2005 às 17:00
Na semana em que caiu o ministro das Finanças saltaram das brumas três eventuais candidatos à Presidência da República. Freitas do Amaral abriu o coração, e não foi difícil de descortinar essa ambição nunca apagada de chegar a Belém. Quase em resposta, muito possivelmente por temer que se acentue ainda mais a deriva direitista do PS, Manuel Alegre veio afirmar a sua disponibilidade para todos os combates pela esquerda. Finalmente, surpreendendo com a maestria que só ele sabe, Mário Soares, por mediação de terceiros, fez saber que, apesar dos seus oitenta anos, está disposto a mais um combate.
Não é a bondade de qualquer das candidaturas que está em causa, mesmo que cause algum espanto saber que existe um sector do PS que perdeu por completo o pudor, e renegando a sua história, admite apoiar Freitas, o adversário de outrora que esteve no palco das eleições presidenciais mais dramáticas da democracia portuguesa.
Caso esta candidatura vingasse, apoiada pelo PS, seria interessante perceber até que ponto iria a hipocrisia política argumentando com Freitas do Amaral, candidato da esquerda (?), contra Cavaco Silva, candidato da direita (?). E em caso de segunda volta, seria gastronomicamente hilariante saber que bicharada iriam engolir desta vez comunistas e bloquistas, sabendo-se que na já antiga disputa Soares/Freitas a ementa proposta pelo PCP foi sapos vivos para derrotar o actual ministro dos Negócios Estrangeiros.
É exactamente para que o regime democrático não se transforme num circo de gargalhada que a velha raposa sai do seu merecido conforto de ancião e está disposto a voltar à estrada. Soares é, ainda, o único tampão simbolicamente reconhecido para que a esquerda seja mesmo esquerda numa disputa eleitoral. O cravo colocado no cimo da utopia romântica que perpetua em reconhecer a comunidade política separada por esta dicotomia política.
É que, em nome do défice, e de outros instrumentos de avaliação económica, ninguém consegue descortinar qual a diferença entre a política realizada por este Governo e a que foi conseguida por Durão Barroso e Pedro Santana Lopes. Até nas célebres trapalhadas não existem grandes diferenças.
E este é o grande paradoxo que as próximas eleições presidenciais vão ter como pano de fundo. Os velhos sonhos que o romantismo saído do 25 de Abril derramou sobre gerações foram destruídos pela miséria funda em que a falta de talento, a incompetência e o compadrio colocaram o País. Não admira, pois, a desorientação das hostes socialistas. Venderam sonhos, produziram ruínas, e aí está o velho lobo do mar, procurando dar mais um alento ao sonho antes do derradeiro canto do cisne.
De facto, este País precisa de voltar a ser pensado como se ainda fosse uma coisa capaz de sobreviver como País e Estado. Cada vez é mais tarde e o romantismo não o salva.
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