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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Novembro de 2004 às 00:00
Os basbaques que se emocionam com o adeus palestiniano a Arafat não fazem ideia das recepções que Osama bin Laden teria nos territórios palestinianos, na Líbia, no Irão, no Iraque ou na Argélia, ou ainda em muitos outros países arábes se, por acaso, lá pudesse deslocar-se em viagem oficial. E também não devem estar informados das grandes manifestações que Hitler, Mussolini ou Estaline suscitavam nos respectivos países quando reinavam sem oposição e pela força de um sistema cruel e impiedoso. Mais recentemente, também Kim Il Sung foi chorado pela sociedade miserável e faminta que criou na Coreia do Norte, tal qual Henver Hoxha naquela Albânia que brilhava como o estado mais puro do comunismo mundial. Todos, sem excepção, foram em seu tempo heróis dos respectivos povos.
Deixemos, portanto, a história fazer o seu caminho, com tempo, com distância e a cargo de pessoas que não têm do mundo a mesma visão de alguns analistas nacionais e outros tantos políticos decrépitos e umbiguistas. O que o mundo devia fazer era aproveitar a morte deste corrupto ditador chamado Arafat – que enriqueceu à conta dos donativos dos países desenvolvidos e civilizados ao povo palestiniano – para dar um novo impulso à Paz. Bill Clinton, observador insuspeito, já o afirmou em livro: Arafat opôs-se ao fim da guerra e foi ele, com essa atitude, quem estimulou em Israel o movimento que levou ao poder o belicoso Ariel Sharon, em alternância ao estilo pacifista e moderado tanto de Yitzhak Rabin como de Shimon Peres.
Os guerrilheiros e os terroristas sabem fazer a guerra mas, como Arafat, raramente conseguem apreciar a Paz. Com a morte deste homem, que não soube parar a tempo mesmo depois de ter recebido um Nobel da Paz (atribuição desprestigiante para a academia sueca), talvez se abra, a médio prazo, depois de consolidado o processo de sucessão, que ainda há-de ter várias etapas, a possibilidade de diálogo. Com Arafat isso já não era possível.
Guterres aparece, Cavaco posiciona-se. Parece cada vez mais claro que o grande debate das presidenciais não vai falhar, disputado unicamente ao centro, entre um centro ligeiramente para a direita e um outro ligeiramente para a esquerda. Neste contexto, que depende unicamente da vontade dos dois protagonistas, o desejo dos líderes de PS e PSD seria secundário, mas Sócrates não renegaria nunca as origens (e por isso fez o apelo a Guterres ainda antes de ganhar o partido) e Santana cumpriu a obrigação agora, sem convicção, e sempre agitando Balsemão e Mota Amaral (como se Marcelo não avançasse se Cavaco decidisse não arriscar uma segunda derrota...).
Ricardo Salgado entende que a Portugal Telecom (PT) pode, ou deve, vender os órgãos de comunicação que gere através da Lusomundo se “aparecerem oportunidades interessantes”. Disse-o em entrevista à TSF, na sua qualidade de presidente do Espírito Santo, um dos accionistas de referência do maior grupo de telecomunicações português. Imediatamente, no dia seguinte, Morais Sarmento achou por bem mandar um recado: a venda da Lusomundo deve ser discutida, mas não no momento actual para as decisões não serem erradas ou precipitadas. É por estas, entre muitas outras deste ministro que chegou ao poder a advogar a venda da RTP2, que o Governo passa por não controlar o apetite de controlar os media e que a PT passa por ser ainda uma empresa do Estado. Duas injustiças?
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