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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Agosto de 2004 às 00:00
A vitória grega de que aqui falo não é a Vitória de Samotrácia, que está no Louvre, em Paris, e que tem asas mas não tem cabeça. Também não é a Vénus de Milo, que não tem braços, o que a impede de mover-se com decisão. Esta vitória grega é coisa pensada e com membros para andar. É uma vitória que, ao contrário das suas mais famosas estátuas, ficou no país. Não estou a falar de símbolos antigos, estou a falar de vida moderna.
Antes da entrada do último pacote de países, a Europa comunitária tinha uma luta renhida pelo último lugar: Portugal e Grécia. Essa luta foi ganha por nós. A Grécia teve de se contentar com o penúltimo lugar: as estatísticas acusavam-na de estar melhor. Eu, as estatísticas não me embalam. São feitas em números e rectas e eu prefiro palavras e curvas. Mas acabo de passar três semanas em Atenas, para os Jogos Olímpicos, e confirmo: Grécia? Quem me dera!
É verdade que passar os Jogos Olímpicos onde quer que seja deixa qualquer um rendido. Se calhar também ficava fascinado com eles em Tirana, Albânia. E olhem que a melhor definição que conheço de Tirana fui eu quem a inventou: um tiranês desembarcado em Bissau fica com os olhos esbugalhados e exclama: “Meu Deus, que progresso!” Mas, à parte o natural fascínio pelos Jogos, a Grécia que eu vi, Atenas, encheu-me as medidas.
Quando digo “à parte os Jogos”, estou a excluir o espectáculo e a emoção das corridas e das outras provas. Aí é natural que esteja de boca aberta, estaria em qualquer sítio, já o disse. Mas não estou a pôr de lado aquilo que levou a isso. Aplaudi a equipa que ganhou prata nos 4x400 metros femininos, mas o que aqui interessa é que ela é uma das dezasseis medalhas gregas. E que, destas, seis são de ouro – o dobro do total, nenhum ouro, das ganhas pelos portugueses! Lembro: para um país que tem a mesma população de Portugal.
Também a Suécia e a Holanda são mais ou menos comparáveis com Portugal e aí já desistimos de pedir meças. Elas, é a nossa desculpa, partiram antes. Com a Grécia nem temos essa desculpa. Ela foi colonizada até ao século XIX (pelo império turco, o que não era exactamente um incentivo ao desenvolvimento), teve uma guerra civil depois da II Guerra Mundial e uma ditadura que acabou quando a nossa, em 1974. Daí que ela possa dizer que o seu atraso se deve à noite negra de muita coisa, como nós com o meio século de salazarismo.
E, no entanto, vejam os extraordinários resultados desportivos. Sim, os gregos já estão noutro campeonato. Mas a comparação é tão negativa só por causa do Desporto? Não, também por causa das cigarras. Conheci bairros e bairros de Atenas onde nunca deixei de ouvir as cigarras escondidas nas árvores. Pensei nesses bairros rascas, de betão e betão, Telheiras e Expo, onde os lisboetas da classe média empataram as economias.
Resta-nos Durão Barroso lá em cima, a mandar na Europa: é tempo dele deixar entrar a Albânia para voltarmos a ter com quem competir.
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