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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Março de 2008 às 00:00
O orfanato 1º de Maio é igual a todos os infernos de depósito humano; demasiadamente atroz para acreditar. Visitá-lo é capaz, rosnam os egoístas, de provocar a seguinte chatice. Os milionários podem ficar desconcentrados. Os ricaços não sabem, mas são pobres. Pior. Serão pobres. O provérbio africano “Quando o coração está fechado, a sorte não entra” é mais certeiro do que um relógio suíço.
Trinco aberto. Há uma miúda que recebe a visita com olhos acesos. São íris tão envelhecidas que comovem a memória de escrita. Dá os cinco dedinhos. A mão adulta segura-os. Nunca antes sentiu tanto calor em vida fria. “Fina” perdeu mãe e pai e os irmãos ficaram na estrada. Tem três anos e um bibe. Não se importa que a única árvore esteja seca. Da terra seca. O escorrega enferrujado. Um dia - sonha a reportagem - aquele chão mirrado de esperança será um jardim. Os brinquedos terão roda. Nenhum braço faltará à sua boneca. Mas o sonho vai sucumbir.
Subindo um lance de escadas sobe-se ao pesadelo. E as palavras, quaisquer que sejam, matam a respiração. Bebés. Dez, doze bebés. Que apetece beijar, levar e proteger, afundados em cadeirinhas de plástico, parecem anciães sem alma. Uma criatura do tamanho que nenhum mal a deva afligir interrompe o silêncio. Chora. Soluça. Engasga-se no pranto. Um pedaço de gesso arrancado na sua perna pequenina deixou grandes mazelas. Uma funcionária tenta despistar-lhe a dor. Canta uma canção. Mas a melodia não chega. Colo. Sim. É o colo que lhe devolve uma calma tremida.
A instituição estatal moçambicana ligada ao Ministério da Mulher e da Acção Social acolhe estes petizes com passados doridos. Ficaram órfãos ou foram abandonados por pais que apodrecem de HIV, de lepra, de malária, de álcool e de prostituição. É a Polícia Municipal que encontra, nos asfaltos e nos contentores do lixo, tais miniaturas de gente e, consoante vagas disponíveis, entrega-as a estabelecimentos do Estado. No orfanato, que ganhou o nome do dia do trabalhador, há, digamos, um carinho técnico. Existem muitas crianças para cuidar e poucas empregadas que tomem conta delas. Fome? Não. Não há iogurtes todas as manhãs, mas a fome, essa cabra, morreu na rua. Fruta. Papas. Leite. Arroz. Não faltam alimentos para ajudar a fortalecer os seres frágeis. E não sobram. Tal como as roupas, estendidas num corda gasta, esperam que os 37 graus as enxuguem. Os panos improvisados, lavados na água escassa, que bóiam num alguidar, são fraldas.
Mas a partir de agora, a boa nova chegou. Filipe Vilard Cortez, comandante da TAP, membro da CIC - Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura – trouxe milagres: fraldas descartáveis. Mais: através de um anónimo conseguiu que, mensalmente, não faltem fraldas. A directora do orfanato sorri. Quem diz o contrário mente; o sorriso africano é largo. Verdadeiro. Dispensa tiques. A mulher de estatura alta, derme tostada, agradece com um obrigado tímido, enquanto a miudagem festeja a segunda oferta trazida pelo senhor dos aviões: elásticos e ganchos coloridos para enfeitar cabelos. Que pena. A entrevista aguarda pela repórter. A hora marcada não consente atrasos. A mão desprende-se da de “Fina” e os quarenta anos voam com vergonha de cumprir horários.
Se no ar a pontualidade é obrigatória, em terra um atraso é mentira. Nem um minuto passa das oito e meia da manhã e o comandante já está pronto para um voo humanitário, desta vez conduzido num jipe, e com ele vem a freira Luísa - salesiana de Itália, que há décadas preferiu o caminho de missionária a rezar ajoelhada numa igreja. O Colégio Maria Auxiliadora é longe, situa-se no distrito de Namaacha, junto à fronteira com a Suazilândia e a um pulo da África do Sul, mas em Moçambique a distância, comparada com os malditos flagelos e com as malditas doenças mortíferas, muitas delas continuam a matar apenas em África, simboliza um meigo incentivo. O intuito da viagem é unicamente um: Filipe, que arrasa o Pai Natal, e também algumas associações que inventam solidariedade de nariz empinado, vai distribuir prendas aos estudantes-residentes da referida instituição católica.
Kits dentários oferecidos pela Clínica Dermoestética, enciclopédias ofertadas pelo Correio da Manhã/Sábado, roupa interior e acessórios que o próprio comprou, estão na bagageira da viatura. Mas não foi canja conseguir que os pacotes não ficassem estancados ade eternum na teimosia do pessoal alfandegário do aeroporto de Maputo. Uma garrafa de vinho e cem dólares do bolso de Filipe aceleraram, e muitíssimo depressa, a burocracia lenta e gulosa. Não é nenhuma novidade. A religiosa não conhece só o Pai Nosso. Sabe de ginjeira o nojo que representa o contínuo comércio clandestino. Um par de calças poderá representar uma pipa de massa. A freira tosse. Refresca os laivos de corrupção contando uma anedota. Depois, prefere enaltecer os homens que sabem praticar o esboço de Leonardo Da Vinci: “Um piloto está mais próximo de Deus.”
Não é o Éden, mas se calhar entrámos nas redondezas do Paraíso. Canções. Batuques. Flores. Uma carta com metáforas lindas que estremece. As boas-vindas da criançada do Colégio Maria Auxiliadora fazem crer que o Mundo anda cego e cruel e autista. Livros, escovas de dentes, camisolas interiores ou um mero laço transformam-se em ouro nas mãos de um mar de crianças e adolescentes que não desconfiam do futuro. Liliana entrará para um convento. Erika será pediatra. Beleza, diz baixinho, que quer ser bailarina. Mostra talento. Põe os pés em posição de pontas. Eleva os braços em arco. Melhor; canta o Lago de Tchaikkovsky. Inaugurado em 1965 com internato, semi-internato e ensino básico, o Colégio Maria Auxiliadora, durante a sangrenta guerra civil, que magoou o país entre 1976 e 1992, e tantas vítimas proporcionou, já viu os dias contados. Dias negros. Mais escuros que a escuridão. As nacionalizações implementadas pelo então Governo da Frelimo, chefiado por Samora Machel, não se privaram de atingir a medula das instituições religiosas. “Já viu o nosso santo?” Pergunta a irmã Benedita. Já. A figura de Cristo é uma presença constante em todas as paredes. Mas não é de Jesus que falamos. “Venham ver”. E vamos. Quando se olha para o dito santo, a boca espanta. Uma incómoda e estrondosa vontade de rir não fica para dentro. É o próprio. Ele mesmo. Vladimir Ilitch Lenin mano-a-mano com Jesus Cristo. Não que ambos quisessem, mas as reminiscências da propaganda oficial socialista fortemente laica, e, indubitavelmente, anticlerical, explicam a gravura pintada à prova de todas as substâncias e pedidos: “Já a lavámos com sabão. Com lixívia. Até já rezámos e não há meio de sair.”
MARIA PEREIRA
Maria Pereira foi mais forte do que as tintas da tropa de Machel. Forçada a largar as instalações do estabelecimento estudantil, a monja de Pinhel disse cara-a-cara aos camaradas que não iria para parte nenhuma. Ficaria ali. E ficou. O exército não baixou as armas, mas recuou. A recente arteriosclerose tirou-lhe a memória da data de nascimento, a lembrança da morada de Portugal, as deliciosas receitas culinárias, mas não conseguiu apagar esses anos de luta. Beatriz Dias abraçou o celibato em 1962, dez anos depois dos votos veio para Moçambique e lembra-se bem da odisseia política: “Queriam que nós saíssemos, mas quem é que tinha coragem de abandonar as meninas?”
As meninas, as cinquenta raparigas, dormem em camaratas limpas. Estudam. Vivem num cilindro de amor. Não têm o olhar funesto da “Fina”. Dizer-lhes adeus é uma promessa de um até já devido. Uma lição severa e ao mesmo tempo meiga. “O coração fala mais do que as palavras”, atira a freira Apoloni, natural do Ruanda, a directora. A frase não consta do Antigo Testamento nem do Evangelho, mas neste oásis a Bíblia é refeita diariamente. E também a quilómetros do colégio Maria Auxiliadora, no Centro de Acolhimento João Bosco, onde os “meninos de rua” podem viver até serem homens.
Salomão é um rapaz de um bom gosto indiscutível. Veste a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Pisca o olho. Pede o endereço da quarentona. Promete um postal. Tomé entrou minúsculo para a instituição e já apara a barba. José vai casar. João recorda-nos que a norma da casa é muito simples: cultivar legumes para comer. Costurar roupa e fardas escolares para vestir. Fazer e vender artesanato para ajudar a custear a manutenção do centro. “Muitos garotos quando aqui chegaram, nem tinham nome”, lembra a irmã Luísa.
Para facilitar a memorização de um batalhão de crianças o baptismo recaiu em nomes equivalentes a feriados religiosos. Apesar de terem sido acolhidos pela ordem religiosa católica, a esmagadora maioria não elegeu o sacerdócio. São técnicos especializados ou concluíram o ensino académico. Tal como a porta se escancarou para que os rapazes entrassem, continua aberta para saírem sempre que desejem. Pouco acontece. “Sinto-me protegido neste sítio” adianta Salô. Não. Não há presentes para dar, mas em breve irá haver.
Filipe, desde a primeira hora que aterrou em Moçambique, não esqueceu a tonelada de roupa presenteada pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, cujo transporte foi oferecido pela administração da TAP, e que, por três inexplicáveis semanas, continuava retida no absurdo dos armazéns do aeroporto da capital moçambicana. Não haveria adegas e dólares americanos que bastassem para apressar a justa entrega. Depois de muitas voltas, de falar com vários secretários dos secretários de ministros, de telefonar resmas de dias e tardes para um tal doutor ou engenheiro, Filipe recebe finalmente a notícia: a tonelada de esperança foi libertada e encontra-se num gabinete do Ministério da Educação. Na manhã seguinte ao vagaroso aval ministerial, o piloto retoma o volante do jipe. Vai buscar a mercadoria com os seus braços.
Metade será entregue aos milhares de refugiados das cheias que alagaram o norte do país. Os restantes quinhentos quilos de roupa já têm dono. Filipe, que insiste dizer que não é “um gajo porreiro”, segue o itinerário emocional. Passa pelas mesmas estradas fartas de buracos. Regressa aos mesmos lugares. Cumpre a promessa. Entrega camisolas, camisas, calças. As crianças não estão só felizes. Chamam-se felicidade ou então outra designação profunda. O comandante volta a Maputo, a essa cidade ainda por construir, onde o Oceano Índico, apesar de imundo, segue, incrivelmente manso e belo.
Filipe abre a janela. Precisa de suar. Uma rajada de sol braseiro destila os vidros e o corpo. Nas calçadas de avenidas espaçosas, mulheres e homens e crianças esqueléticas procuram sombra para morrer. As imagens da execrável pobreza flagrante, inaceitável, não coincidem com a beleza-fogo africana. A terra de Moçambique é detentora de uma pujança que ultrapassa a Natureza. Há quem diga, inclusive, que África puxa-nos para um fundo carinhoso irreversível. Que nos desperta o espírito. Que nos dita a verdade pelo coração.
MUITO POUCO PARA QUEM MUITO PRECISA
Quando o comandante da TAP abriu as portas da bagageira do automóvel para entregar as boas surpresas que trazia de Portugal, algumas crianças ficaram tão felizes que muitos olhinhos lacrimejaram de tanta felicidade e outras, espontaneamente, cantavam canções africanas para agradecer a visita e os presentes. Escovas e pastas de dentes, enciclopédias, livros, roupa, ganchos e laços para o cabelo, tudo é muito pouco para quem muito precisa, afirma Filipe.
O BEM É PARA SER FEITO E PONTO FINAL
Filipe Vilard Cortez, Comandante da TAP, nasceu na cidade Invicta em 1955, é presidente da organização humanitária “Pilotos sem Fronteiras” e membro da CIC – Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura. Bisneto de um senhor bastante aventureiro cuja história serviu, inclusive, de musa para o romance de Miguel Sousa Tavares, “Rio das Flores”, Filipe, homem de cariz generoso extraordinário, sempre atento às necessidades dos mais carenciados, desde sempre se sentiu atraído pela aviação. Em 1970 tira o brevet para ingressar na Força Aérea Portuguesa. Foi piloto de caça, levantou e levanta asas a todos os aeroplanos imagináveis. Viveu nos Estados Unidos. Na Europa. Nos últimos tempos, em Sintra. Tanto faz. O comandante é um cidadão do mundo raro: o bom. Detentor de um coração fora de série de bondade, não gosta que lhe elogiem o que pratica em terra. Porque o bem é para ser feito. Ponto final. Foi o que ele fez em Moçambique. Entregou prendas e levou a esperança a um punhado de crianças. Moveu o céu e a terra para que isso acontecesse.
O 'SANTO' VLADIMIR LLITCH LENIN
É verdade que é muitíssimo estranho ver a imagem de Vladimir Ilitch Lenin na parede de uma igreja, mas existe uma explicação para tal; durante os primeiros tempos do Governo chefiado pelo, então, Presidente de Moçambique, Samora Machel, os ideais radicais da esquerda, que eram bastante anticlericais, não somente perseguiam instituições religiosas como também as transformavam nas suas sedes políticas. Foi exactamente isso o que sucedeu ao Colégio Maria Auxiliadora. Para apagar a gravura do revolucionário russo, as freiras já tentaram todos e mais alguns materiais: lixívia, sabão azul e branco, detergente para ratos. Inclusive, já rezaram a Deus. Mas, até à presente data, o esboço do teórico do Marxismo e autor do “imperialismo” contínua vivo na capela do estabelecimento salesiano. Ao que parece não há nada que o consiga fazer desaparecer.
OS GAROTOS DE MOÇAMBIQUE
Os garotos de Moçambique, que o Mundo arranjou maneira de esquecer, receberam das mãos do comandante Filipe Vilard Cabral roupa oferecida pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, os mais pequenos fraldas descartáveis, contribuição de alguém que quis ficar anónimo, kits dentários da Clínica Dermoestética e enciclopédias Correio da Manhã/Sábado.
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