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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Fevereiro de 2005 às 17:00
Nas últimas décadas, ninguém criticou, pela palavra escrita, de forma mais consequente e sistemática o Partido Comunista Português do que José Pacheco Pereira. Nos tempos da ditadura ele foi da extrema-esquerda, maoísta. Vinda a democracia, ele fez um trajecto que alguns fizeram por oportunismo, tornou-se militante e dirigente de um partido, o PSD, que é do centro-direita, longe ideologicamente de onde ele veio. Como, por esse partido, Pacheco Pereira foi eleito para cargos (deputado no parlamento português, deputado europeu...), muitos suspeitaram estar ele a adaptar-se para melhor rapar o tacho.
Num país pobre, sobretudo de convicções, é costume duvidar-se de quem adere a partidos. Quem vira a casaca ideológica, esses então, ficam com uma espécie de mancha infamante. Mas, na verdade, Pacheco Pereira é um despadrado singular. O próprio dos vira-casacas é tentarem fazer esquecer o pecado original. Ora Pacheco Pereira, que é historiador, não só se dedica à área ideológica que foi a sua e já não é (prepara uma História da extrema-esquerda portuguesa, tem uma biografia de Álvaro Cunhal), como também intervém regularmente nos debates críticos ao marxismo-leninismo que apoiou e outrora difundiu.
Isso de falar do passado com que se cortou leva geralmente a um tom ressabiado que conhecemos, por exemplo, em Manuel Monteiro quando fala de Paulo Portas. Nada nos perturba mais do que a nossa própria memória desmentida pela actualidade. Dá vontade de apagar, de fazer mal ao passado. Eu trago aqui o Pacheco Pereira porque ele parece não estar zangado com o que foi. Para quem mudou tanto como ele, é de assinalar.

Pacheco Pereira é autor do mais famoso blog português, o Abrupto. Um blog é uma espécie de diário moderno. Diário, porque é escrito a quente, moderno, porque foge à intimidade dos diários das raparigas antigas, podendo ser devassado por qualquer passante pela Internet. Esta semana, ele referiu um episódio da campanha eleitoral, a ida do comunista Jerónimo de Sousa a Alpiarça.
Ele diz que Jerónimo de Sousa estava comovido ao ver os velhos comunistas de Alpiarça, resistentes à ditadura salazarista. E escreve: “A cena de Alpiarça tem qualquer coisa de tragédia clássica, um percurso de sofrimento profundo demais para se bastar apenas nas palavras de revolta. No fundo, ter que dormir uma noite numa oliveira para fugir à PIDE, parece hoje coisa de pouca monta para quem lê sobre todas as desgraças do século num livro. Mas, naquela sala, não se leu, viveu-se, o que faz toda a diferença.”
Ninguém, nas últimas décadas, criticou mais as ideias dos velhos comunistas de Alpiarça do que José Pacheco Pereira. Eu escrevo esta crónica hoje para dizer que estou reconfortado. Não gostaria que só ganapos de gel que não sabem nada da vida fossem os adversários dos velhos de Alpiarça. Estes estavam errados, mas são homens com uma vida que exige para adversários homens. Como Pacheco Pereira.
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