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Correio da Manhã

Opinião
8 de Setembro de 2010 às 00:30

A vida de uma família, comunidade ou país pode ser vista, pensada ou sonhada a vários ritmos e tempos. O tempo da política, dos poderosos mercados financeiros ou dos media é cada vez mais marcado pela ditadura do momento, pela ansiedade do byte e pela excitação do último escândalo público. A consequência é a autofagia do quotidiano, a falta de distanciamento e estratégia.

Amanhã será 9 de Setembro, dia mítico descoberto por Passos Coelho numa noite quente de Quarteira como limite para apresentação das linhas gerais do Orçamento enquanto o PR ainda poderia dissolver o Parlamento. O alvo da ameaça é errado (amanhã nada muda nos poderes do Governo mas sim do Presidente em fim de mandato), a substância pobre (os limites às deduções fiscais eram previstos no PEC viabilizado pelo PSD em Março) e, como Cavaco Silva lembrou, o Orçamento é apresentado a 15 de Outubro.

Depois do anúncio da proposta de revisão constitucional, foi o segundo passo em falso da nova liderança do PSD, dividida entre a avidez de poder a qualquer custo e as agruras da estratégia a médio ou longo prazo. Os portugueses são propensos à depressão e crise de confiança, mas o mérito de três décadas de democracia foi transformar Portugal num dos 38 países de muito alto desenvolvimento humano. É nos indicadores sociais que mudamos profundamente - a esperança de vida passou de 68 anos em 1975 para 78.6, a mortalidade infantil baixou de 53 por cada mil em 1970 para menos de 4 e o analfabetismo de 30 para 5%. O nosso IDH em 1970 correspondia ao atual da Tunísia e a mortalidade infantil à da Índia. Foi este o caminho do modelo social português que temos de considerar quando se fazem comentários apressados sobre o SNS ou a universalização da escola pública.

Hoje temos de discutir como adequar eficiência no uso dos recursos, promoção da competitividade e crescimento a regras partilhadas por países com a mesma moeda e sem fronteiras mas com diferentes níveis de crescimento. O próximo Orçamento é uma versão anualizada do PEC, que só entrou em vigor em Julho. A equação difícil que vale a pena discutir é qual a dose certa de austeridade que dê fibra e credibilidade à economia sem voltar a pôr o doente em coma recessivo. Para isso é preciso saber como chegamos ao atual nível de desenvolvimento social e definir objetivos a longo prazo, a discutir depois de amanhã, superando exaltações de Verão de lideranças adolescentes com naturais crises de afirmação.

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