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Correio da Manhã

Opinião
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25 de Junho de 2006 às 00:00
Pinto de Sá, professor universitário e ex-militante maoísta, escreveu um livro sobre matéria “proibida”: a delação. ‘Conquistadores de almas’ retrata uma experiência de prisão pela PIDE, cedência à tortura e denúncia de camaradas, que implicou que o autor fosse expulso, antes de 1974, da organização de extrema-esquerda a que pertencia e de novo preso, em circunstâncias bem diferentes, já depois da revolução.
Não é raro sucumbir perante a tortura, mas é quase inédito assumi-lo. Só através de terceiros ouvimos histórias, mais ou menos verosímeis, de “colaboração” com a Polícia política. Mesmo que pareça trivial quando comparada com o exorcismo escolhido pelo ‘Lorde Jim’ de Joseph Conrad, que se redimiu de um irrepetível momento de fraqueza (num naufrágio) sacrificando a própria vida, uma confissão espontânea e em letra de forma corresponde sempre a um exercício de autenticidade muito duro.
A ambiguidade do delator constitui, de resto, um tema tratado com profusão na literatura, no cinema e na banda desenhada. Jorge Luís Borges (‘Tema do traidor e do herói’, 1944), Bernardo Bertolucci (‘A estratégia da aranha’, 1969) e Hugo Pratt (‘As célticas’, 1980) apresentam-nos o dirigente revolucionário que denuncia os companheiros, é “exe- cutado” em segredo e acaba mitificado como mártir da causa. A ténue fronteira que separa o heroísmo da traição e a troca de papéis entre vítima e carrasco constituem os tópicos comuns a estas narrativas, que se desenrolam, sem variações sensíveis, entre independentistas irlandeses ou antifascistas italianos.
Mas o problema essencial que agora se coloca é outro. Está em causa a “colaboração objectiva” com os torcionários por parte daqueles que não perdoam a quem é vergado pela tortura. A intolerância, característica de partidos que lutaram na clandestinidade contra regimes repressivos, fazia parte de uma estratégia de sobrevivência que também incluía o secretismo de procedimentos e o “centralismo democrático”. Banindo os “fracos” e punindo os “traidores”, as organizações davam o exemplo aos seus militantes e preveniam infiltrações policiais.
Todavia, uma tal prática punha – e põe – em crise a reprovação da tortura, que está longe ainda de ser um dado civilizacional indiscutível (na verdade, há quem tente reabilitar hoje práticas indignas, a pretexto do combate contra o terrorismo e a criminalidade organizada). A condenação incondicional da tortura impõe que nunca confundamos os torcionários com as suas vítimas. Quem incorrer nessa confusão acaba por se transformar em executor ou coveiro das almas que outros torturaram.
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