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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Novembro de 2006 às 17:00
Os democratas-cristãos venceram as eleições holandesas. Uma vitória que terá surpreendido o próprio partido vencedor, dado como derrotado nas últimas sondagens, realizadas antes das eleições. Perderam os trabalhistas, a quem as sondagens confiavam a vitória. Mas a Holanda ficou menos governável e mais dependente dos extremos.
A extrema-direita teve uma subida assinalável. A extrema-esquerda triplicou praticamente a sua posição. Dito por outras palavras: desceu o centro, subiram os extremos.
O fenómeno não é exclusivo da Holanda. Quando se jogam problemas como a imigração, a segurança e o sistema social, os partidos dos extremos apostam tudo no populismo fácil, próprio de quem só remotamente chegará ao poder.
Mas a força dos partidos mais radicais reside também na debilidade política dos chamados partidos do centro que se deixaram contagiar pela anestesia de Bruxelas. Nos pequenos países europeus (sobretudo) foi crescendo a convicção de que a política interna de pouco adiantaria e que o centro de gravidade da decisão se encontrava em Bruxelas ou noutras capitais da Europa. Em muitos casos fazer política passou a ser sinónimo de procurar convencer os eleitorados da bondade das políticas europeias: desde os Tratados que ninguém discutia, até aos números do défice que só alguns cumpriam.
Mal ou bem, os desígnios europeus passaram a ser vistos como metas de ordem económica ou meramente financeiras. Abdicou-se, objectivamente, da política, mesmo que muitos não o queiram reconhecer. Em nome da eficácia e dos resultados, a discussão das ideias perdeu terreno e, para muita gente, deixou de fazer sentido.
A queda do muro de Berlim dava o melhor dos motes: a ‘História’ estava a chegar ao fim. Puro engano. Se dúvidas houvesse, bastaria dar uma olhadela pela situação internacional, para ver como a ‘História’ está para lavar e durar, com múltiplas incógnitas e novas equações.
A recuperação da política não pode ficar reservada aos políticos populistas, sejam da extrema-direita ou venham da extrema-esquerda, que tantas vezes conseguem impor a sua própria agenda de questões e de objectivos. Os partidos do centro, a quem tradicionalmente os eleitorados europeus entregam o poder, têm na recuperação da política um dos seus principais desafios.
Uma Europa politicamente amolecida fica, internamente, mais dependente dos extremos e, na frente externa, claramente fragilizada, incapaz de assumir papel activo e credível nos diferentes teatros internacionais.
A Europa distraiu-se do Mundo, porque os europeus se distraíram da política.
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