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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Maio de 2009 às 09:00

Cavaco Silva está solitariamente a passar, nos tempos que correm, irritações, angústias e dificuldades de que não estava à espera. Na primeira etapa do seu mandato revelou-se um Presidente de um enorme bom senso, evitando choques ou pressões inúteis com o governo e outras instituições. A partir da eleição de Manuela Ferreira Leite para guiar os destinos do PSD as coisas mudaram. É sabido que Manuela Ferreira Leite é uma escolha do Presidente, que o PSD, depois de muitas convulsões, acatou. Mas, infelizmente, o tempo veio a demonstrar que não foi só uma escolha. Cavaco Silva tem sido um discreto conselheiro e protector de MFL (essa condição deve ter sido a única maneira da MFL aceitar uma tarefa para a qual não sentia nem vontade nem aptidão).

Mas as inseguranças e inabilidades da líder estão a transformar o PSD num partido sombra de Cavaco. O partido causa-lhe hoje mais agruras do que quando ele próprio liderou os sociais-democratas. Os vice-presidentes do PSD e os membros da Comissão Política não se chegam à frente para ajudar Ferreira Leite, embora, em abono da verdade, deva dizer-se que MFL quer tomar e toma, na maioria das vezes, as grandes decisões sem ouvir ninguém, com excepção do Presidente da República. O caso da escolha de Paulo Rangel para cabeça de lista às europeias é paradigmático.

É óbvio que é uma boa escolha, mas e depois...? Quem segura o partido, a estratégia, a discussão com Sócrates no Parlamento? O afã de MFL em seguir as directivas de Cavaco levou-a a considerar a reedição do bloco central, quando é sabido que a principal linha de orientação estratégica do PS de Sócrates é a recusa dessa aliança e a defesa intransigente de que, a bem da estabilidade governativa, é preferível uma maioria absoluta de um só partido e pactos de regime em áreas sensíveis da vida nacional. MFL, em vez de afastar sem ambiguidades essa solução, que é claramente uma declaração antecipada de derrota, fez um discurso ambíguo que só podia dar no que deu. A tentativa de correcção posterior foi como, soe dizer-se, pior a emenda que o soneto. Manuela erra, quem sofre é Cavaco.

As expectativas do Presidente em MFL esboroaram-se. Mesmo sem querer, a líder dos sociais-democratas está a deixar o PSD e Cavaco Silva em grandes dificuldades. No PSD as reacções já são visíveis. O mal-estar instalou--se nas cúpulas do partido. De Belém há silêncio. E só se percebe o mal-estar do Presidente quando, aqui e ali, endurece o discurso. Quando Cavaco Silva, no dia 25 de Abril, diz que "é preciso estabelecer consenso entre partidos estruturantes da nossa democracia" está a lançar a ponte para salvar MFL do naufrágio. Uma tentativa difícil e nada auspiciosa.

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