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Correio da Manhã

Opinião
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Fernanda Palma

Antígona, hoje

“Ser pessoa e respeitar os outros como pessoas é, como dizia Hegel, a essência do Direito”.

Fernanda Palma 5 de Outubro de 2008 às 00:30

Entre as figuras mais fortes e mais distantes do mundo contemporâneo que a tragédia grega nos legou está a Antígona de Sófocles.

Antígona foi condenada a ser encerrada viva num sepulcro rochoso por ter cometido o ‘crime’ de sepultar o irmão, considerado traidor à pátria. Desafiou a fúria do rei, Creonte, porque desobedeceu à lei em nome do que, para ela, era mais importante: a piedade para com um irmão morto.

Esta figura da tragédia grega está, em simultâneo, longe e perto do nosso tempo. Longe, porque a piedade para com os mortos tem pouca importância nos dias que correm; perto, porque Antígona se assume como uma mulher inteira e não como uma boneca animada.

Antígona determina a sua vida e a sua morte a partir da convicção íntima sobre o que vale a pena. E, segundo ela, é preferível desrespeitar uma lei contrária aos sentimentos de piedade para com o irmão morto do que, por medo de ser castigada, nada fazer.

A heroína contrapôs um valor generoso, a compaixão, a uma ordem tirânica. Na verdade, a lei de Creonte violava sentimentos de identidade pessoal e, por isso, o ‘crime’ de Antígona não foi mais do que uma desobediência a uma lei impiedosa.

Às vezes, vamos cedendo em várias coisas, o que nos mina a identidade. Ora, Antígona mostra que não vale a pena viver contra a própria consciência nem abdicar de valores que não são nocivos para os outros, ainda que lhes desagradem.

Antígona não tem lugar no mundo moderno a não ser quando exige aos vários poderes políticos e sociais que respeitem um núcleo de sentimentos e convicções. Uns e outros, mesmo que pareçam pouco racionais, são a ‘alma’ de cada pessoa.

Há uma racionalidade dos afectos que tem merecimento e é construtiva da comunidade e que não prejudica senão a autoridade, a qual não se justifica por si mesma. Ser pessoa e respeitar os outros como pessoas é, como dizia Hegel, a essência do Direito.

Em vários temas chamados fracturantes, como a despenalização do aborto, o casamento entre homossexuais ou a procriação monoparental medicamente assistida, algo recorda Antígona: o desejo de afirmar valores diferentes dos maioritários mas essenciais para os próprios.

A posição das maiorias não deve imitar a do arrogante Creonte, a quem o filho Héman diz: "Repara no que acontece ao longo dos rios cheios de devastadoras águas. Todas as árvores que se dobram à corrente conservam os seus ramos; as outras, as que não cedem, são arrastadas com as próprias raízes."

Para preservar os valores da democracia e até os melhores valores relacionados com vínculos afectivos é necessário acolher as suas novas expressões. É necessário afastar sentimentos de rejeição dos que, por novas vias, só desejam, afinal, ser pessoas livres e respeitadas.

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