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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Janeiro de 2007 às 17:00
Começo por um esclarecimento. Eu sei que ‘Os Grandes Portugueses’ é um concurso televisivo. E que, sendo mero espectáculo, não justifica arrebatamentos, profissões de fé ou imolações pelo fogo, como se um espectáculo pudesse apurar de facto o ‘maior português’ e como se tal coisa existisse. Mesmo assim, desde que observemos a fronteira que separa a realidade da alucinação, é divertido fingir que se leva aquilo a sério. Peço, então, licença para fingir que a já célebre ‘lista dos Dez’ merece análise.
Para minha surpresa, ao contrário da lista dos 100, pródiga em excentricidades e anedotas, a dos ‘Dez’ é, de um modo geral, razoável. Li por aí que sofre de “conservadorismo”. Não é doença grave. Pelo menos, evita o tipo de embaraços que os equivalentes estrangeiros do programa não evitaram. No meio dos seus melhores, os ingleses colocaram a senhorita Diana e John Lennon. Os americanos, Elvis Presley e a apresentadora Oprah Winfrey. E os franceses a malograda Piaf, além de dois actores dos quais só os franceses poderiam gostar. Apenas as escolhas alemãs escapam ao circo. Aliás, tirando o sinuoso Willy Brandt (uma antipatia pessoal), o ‘peso’ da lista alemã impressiona: Lutero, Marx, Bach, Guttenberg, Goethe, Einstein.
Obviamente, Portugal não é a Alemanha. Mas, de um modo geral (insisto), fizemos o que pudemos. A nossa ‘lista’ inclui três figuras ligadas aos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e D. João II. Temos, por dívida ao mito e inerência de funções, D. Afonso I. Há o reformismo do Marquês de Pombal, ainda que com alguns excessos para os sensíveis padrões contemporâneos. Na literatura, estão Camões e Pessoa, os únicos nomes próximos de uma espécie de ‘cânone’. E, se acharmos o Holocausto o evento central do século XX (eu acho), aceita-se o relevo concedido a Aristides de Sousa Mendes.
Contei oito. Faltam dois. E esses é que se lamentam, e, por azar, esses é que interessam. A RTP teve o cuidado de apresentar a ‘lista’ final por ordem alfabética. Não eliminou a suspeita de que Salazar terá sido o mais votado e de que Cunhal andou perto. Para a frente, a ameaça é que o programa se reduza a uma competição exclusiva entre militantes das duas luminárias acima.
Seria ridículo relembrar agora os currículos de Salazar e de Cunhal. Espantosamente, seria também útil: segundo parece, largos sectores da população inscreveram-se em claques de apoio a um ditador fradesco e a um funcionário de Estaline – como se ignorassem o que representam ou, pior, como se apreciassem o respectivo legado. Ao eleger os ‘Grandes Portugueses’, inúmeros dos pequenos traem as suas íntimas ambições, e estas não incluem a democracia.
Felizmente, relembro que isto é um simples concurso, cujos resultados, decerto viciados, não permitem extrapolação. Se permitissem, a liberdade, a prosperidade e o relativo privilégio em que hoje, apesar de tudo, vivemos, constituiriam uma improvável vitória perante tantos de nós que, alegadamente, abominam tais conquistas. Vai-se a ver e os grandes portugueses são todos os restantes. Apesar de tudo.
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