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Correio da Manhã

Opinião
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25 de Janeiro de 2003 às 00:08
País está hoje chocado com o lixo das televisões mas amanhã renasce exaltante com o trabalho de um neurologista do Hospital Egas Moniz que desenvolveu uma técnica revolucionária no campo das lesões da medula.

É este jogo de extremos que ajuda a perceber o andar cambaleante de Portugal. Faz o trajecto sinuoso do alcoolizado, cai, levanta-se e resmunga, mas vai dar sempre a casa e não se atrapalha com a fechadura da porta. Portugal é um sobrevivente. Um veterano que já deu provas nos Descobrimentos, gozou o ouro, as madeiras do Brasil e as especiarias do Oriente mas que empobreceu depressa atingindo níveis de subdesenvolvimento terceiro-mundistas.

Este ziguezague enervante não destruiu o País e o cimento cultural já patinado que o envolve. É neste caldo que se devem observar as coisas boas e más que nos vão acontecendo, sem dramatizações nem alarmismos mas também sem arrogâncias nem provincianismos.

Sendo indiscutível o desinvestimento na programação televisiva das estações privadas, mais na SIC do que na TVI, sendo óbvio que a oferta é hoje mais pobre do que sempre foi, ninguém imaginava que em tempo algum se chegava a um nível tão rasteiro e incivilizado, muito longe agora do que a Europa oferece.

Esta fase que se estriba nas baixezas da televisão sul-americana mais rasca choca mas não pode ser pretexto para a instalação de regimes censórios, mais ou menos encapotados, nem para institucionalizar a intervenção do Governo nos conteúdos televisivos.

Existem leis. Cumpram-se as leis. Mas estas perversidades não. Seria pior a emenda que o soneto. A liberdade de informação e de programação é um bem muito estimável em democracia e deve ser salvaguardada a todo o custo. Viver em democracia e em liberdade obriga muitas vezes a um preço elevado. Mas nada deve ser feito para mutilar esses valores.

Acresce, para além disto, que mantenho a minha convicção profunda de que os públicos são seres activos e incapazes de se deixarem enganar por estas incompetentes figuras. Vamos ver quantos destes programas vão sobreviver e o grau de desprezo a que serão votados pelos públicos. Vão morrer, estou convencido, sem glória, sem audiências e sem publicidade.

No extremo oposto desta linha, a exibir um outro Portugal, que trabalha silencioso, longe das luzes, e a curar-nos a alma destas grosserias apadrinhadas por gente tão queque que antes

excomungou esta tralha nauseabunda e hoje a elogia em desespero de causa, aparece um neurologista do Egas Moniz e a sua equipa, a descobrir a capacidade de regeneração das células da mucosa nasal para recuperar paraplégicos. O mundo inteiro da medicina abre a boca de espanto, rende homenagem a esta equipa de grande mérito e poucos recursos para investigar, e enche-nos a todos, portugueses, de um enorme orgulho. Até parece um sonho. Neste cantinho à beira-mar plantado há gente que se agiganta sem soberba nem vaidade, e nos renova a vontade de continuar a acreditar que este País vai vencer as suas dificuldades, as de hoje e as ancestrais.

Se vencemos uma vez os atrasos atávicos não podemos vencer mais vezes? Se o mundo se espanta com os nossos feitos não podemos repetir a façanha?
O País oscila entre o ratinho televisivo, pequeno e fedorento, e a força, a inteligência e a perspicácia da equipa do Egas Moniz.

Obviamente que o Ratinho vai morrer sem história à porta de quem o gerou.
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