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Correio da Manhã

Opinião
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25 de Março de 2005 às 17:00
Sócrates anunciou o fim da venda exclusiva nas farmácias de medicamentos não sujeitos a receita médica. Os proprietários de farmácias, senhores de arcaicos privilégios, num autismo construído à sua medida, mobilizaram-se para defender a sua praça forte. Entende--se o seu esforço e é clara a sua motivação. A medida anunciada vai abalar um chorudo negócio. Está em causa a eventual diminuição de fabulosos lucros.
Daí que tudo a que assistimos não passe do resultado da tirania do cifrão a toldar inteligências e a propiciar delírio. Os farmacêuticos têm as contas bem feitas e sabem quanto vai deixar de entrar-lhes nos bolsos.
Há que recordar-lhes que há muitos anos que as farmácias são meros locais de comercialização de produtos, que não fabricam nem manipulam. Vendem por indicação médica o que outros produzem. Tiram da gaveta, entregam e metem o dinheiro na caixa registadora. Para o que fazem basta que tenham ao balcão quem saiba ler e escrever, porque a registadora faz as contas. São comerciantes iguais a tantos outros. E quando fazem mais do que isto e se atrevem a prescrever, mesmo produtos inocentes, abusam.
Porque nem farmacêuticos nem técnicos de farmácia são médicos. Não diagnosticam, nem podem nem devem medicar. Seja o que for. Nem uma simples aspirina.
Por isso todas as tentativas de ‘justificar’ este privilégio não passam de uma medíocre teatralização. É incrível o esforço com que, para contrariar esta realidade, os proprietários das farmácias ensaiam um ar doutoral e debitam as maiores patranhas, insultando a inteligência dos Portugueses. O maior serviço que podiam prestar-nos era exibir um mínimo de pudor. Aceitar as regras de um sistema económico em que, como privilegiados, são um indesejável tumor. Um anacronismo num mundo onde, livre iniciativa, competitividade, concorrência são palavras de ordem. Saúde pública? Abuso de drogas? Intoxicações? Nada disto tem nada a ver com os monopólios das farmácias. As drogas pesadas nunca passaram pelas farmácias nem pelos supermercados e estão por todo o lado. Intoxicações com drogas houve sempre. Até nos serviços hospitalares. Lamentavelmente, a única coisa com que os monopólios dos farmacêuticos têm uma relação directa é com o montante dos seus lucros. O resto é uma frágil muralha de palavras que insistem em edificar à sua volta.
O negócio é chorudo e chega para todos. Ficarão apenas um poucochinho menos ricos.
O pior vai ser quando o Governo puser termo a outra das maiores indignidades em termos de privilégios de que só as farmácias beneficiam e nada justifica. Possibilitar que qualquer pessoa possa abrir uma farmácia obrigando-a, apenas, enquanto for necessário salvaguardar aparências, a ter um farmacêutico a dirigi-la dando, assim, a oportunidade a milhares de jovens licenciados impedidos de prosseguir a profissão que escolheram. Aí sim. Garantimos que os proprietários das farmácias irão trepar paredes.
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