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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Junho de 2004 às 00:00
A Rússia joga a 12, em Faro, joga a 16, em Lisboa e joga a 20, em Faro. Não, não vou falar sobre futebol. Vou falar sobre Economia e como se pode ser estúpido com ela. Ser estúpido com a Economia é grave. Sem aquilo que ela dá, dinheiro, dificilmente se pode ser feliz.
Para começar, um pouco de aritmética: 16 menos 12 dá 4. E 20 menos 16 dá 4. Quer dizer, entre as viagens dos russos por Portugal – do Algarve para a capital, da capital para o Algarve – não cabem sete dias. Cabem, de cada vez, só quatro dias. Esse, o facto. Contra o facto, os hoteleiros algarvios impuseram o seu argumento: só vendemos pacotes de sete dias. Sete. E nem menos um dia.
Ponham-se no lugar de um moscovita. Desejoso de acompanhar a sua selecção nacional, tinha de comprar um pacote de sete dias para o primeiro jogo, tinha de pagar dois dias de hotel em Lisboa e tinha de voltar a comprar outro pacote de sete dias no Algarve. Recapitulando as estadas que teriam de ser pagas: sete mais dois mais sete. Igual a 16 noites. Vá lá, fica-se uma noite só em Lisboa: 15 noites. Quer dizer, 15 noites obrigatoriamente pagas para cobrir a hipótese de se ficar entre 12 de Junho a 20 de Junho. Quer dizer, em 9 noites realmente dormidas, seria obrigado a pagar seis ou sete noites a mais, para satisfazer a cupidez dos hoteleiros algarvios.
Consequência (porque os russos não são parvos): em vez dos 50 mil turistas russos previstos, só vêm 12 mil. Dir-me-ão os taberneiros: esses 12 mil, pagando o dobro, já dão uma boa maquia. Aproveita-se o Europeu de Futebol, estica-se a corda e com um mínimo de serviço ganha-se um máximo de lucro. Argumento, repito, de taberneiro.
Se os hotéis algarvios tivessem à sua cabeça gente inteligente, o Euro’2004 não seria visto como a vaca a ordenhar até mais não. Seria visto como uma oportunidade para conquistar novas e futuras oportunidades.
Com quem estavam a negociar os hoteleiros? Com russos. Quer dizer, com, talvez, os clientes com maior poder de crescer: a Côte d’Azur francesa está cheia deles. Depois de décadas sem poder sair de casa, os russos têm uma fome de anteontem de viajar. E mais: a sua economia continental permitiu, de um momento para o outro, fazer aparecer gente com dinheiro para ser turista. Os milionários russos compram Mourinhos, os remediados russos compram pacotes turísticos. Já é assim e ainda vai ser mais nos próximos anos. Mas duvido que o Algarve, o Algarve dos lambões, venha a ser futuro destino dos russos.
Os camponeses do Fundão, que têm um produto soberbo, a melhor cereja europeia, mas que só eles sabiam que era tão boa, perceberam para que servia o Euro’2004. Vão para as portas dos estádios dá-la. No imediato, que ganham com isso? Nada, até perdem. Mas, graças a essa acção de propaganda, vão passar a vender a cereja do Fundão para toda a Europa. Graças a este ano, ganham vários anos. Os camponeses do Fundão pensam.
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