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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Setembro de 2005 às 17:00
Manuel Alegre faz parte do restrito grupo de portugueses que já ganhou o respeito e a admiração dos portugueses. Essa admiração e respeito não são ameaçados pelas suas posições políticas, nem pelas suas declarações circunstanciais sobre a realidade do País pela única razão de que gravita já numa órbita de intocabilidade a que chegou por mérito próprio, como português, como político e como escritor/poeta.
Relembro estes dois pressupostos para sublinhar como me parece patético que esta figura, reserva e exemplo da Nação, se envolva na baixa política, como qualquer político vulgar, fazendo joguinhos de poder que não são minimamente compatíveis com o seu elevado prestígio.
Os que privam de perto com Manuel Alegre dizem que se trata de uma birra porque é indubitável que o seu comportamento na questão presidencial tem ultrapassado tudo o que era expectável mesmo tendo em conta o seu feitio difícil.
O jogo de ambiguidade que vem alimentando na Imprensa com declarações tipo “nunca disse que era candidato mas nunca disse que não era candidato”, o lançamento de um ‘site’ no pressuposto de que o seu amigo Mário Soares falhe o tiro de partida são atitudes que não quadram muito bem com o perfil de um homem que já deu tanto a Portugal que é um grande poeta do sec. XX, que foi um herói na luta contra o salazarismo, que é hoje uma referência moral para o povo português, conselheiro de Estado e uma voz que sempre defenderá os valores da liberdade e da democracia.
Confesso que me custa, eu que tanto o admiro, vê--lo envolvido nestas andanças procurando fragilizar a candidatura do PS às presidenciais do próximo ano. Vale a pena referir que Soares só se recandidata à Presidência da República em última instância, desdizendo-se em relação ao que era o seu propósito sincero de intervenção na vida política, porque a esquerda e o PS em particular não tinham candidato e havia já uma atitude resignada de que Cavaco Silva seria eleito sem nenhuma oposição.
O cortejo de candidatos ou protocandidatos à esquerda do espectro político foi grande. Guterres perfilou-se mas nunca ousou avançar contra Cavaco Silva. Depois de Guterres a relação é longa e revela desnorte. Ferro Rodrigues, António Vitorino, Jaime Gama, Jorge Coelho, Manuel Alegre. Nenhum foi decidido e afirmou a sua disponibilidade com excepção de Manuel Alegre apenas quando soube que Soares ia anunciar a sua intenção de se candidatar. Todos ficaram nas covas. Tiveram medo de perder com Cavaco. Acharam que não tinham hipóteses de vitória e que iam ser esmagados pelo professor de Economia. Ninguém se queria sujeitar a ser o ‘bombo da festa’ apesar do apoio garantido do PS e do seu líder.
Quando Soares, instado por muita e boa gente, avança para essa batalha fê-lo com uma imensa coragem e correndo o risco de ser sacrificado pelos seus inimigos políticos porque meses antes garantira que não voltaria à política activa. Só razões profundas de interesse nacional e de serviço à causa da democracia poderiam levar Soares a retirar-se do seu sossego para vir dar a cara pela esquerda portuguesa que continuava sem candidato capaz de federar todas as vontades políticas, unir o PS, lutar contra o fatalismo nacional e vencer Cavaco Silva. Alegre, que é amigo de Soares, sabe que esta é a verdade.
Aceito que fizesse a declaração de renúncia ao apoio do seu camarada de tantas horas difíceis mas não concebo que se coloque ao lado de Cavaco Silva, erguendo obstáculos e dificuldades ao avanço da candidatura já irreversível de Soares.
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